Às cinco, na Academia

Às cinco da tarde, começou a aula na academia de ginástica. Na praça central da cidade, no horário em que as pessoas retornam do trabalho para suas casas, um estranho homem, bastante velho, cabelos e barbas longos e brancos, subiu no assento de um banco, chamando a atenção dos passantes. Creio que não existe horário melhor para realizar uma seção de ginástica que o final de tarde.

É o momento em que os dispositivos fisiológicos mais intensamente se mobilizam; recordes mundiais de atletismo costumam ser quebrados no pôr-do-sol. Na praça, às dezessete horas, quando o céu está claro, há luzes peculiares, que tingem de dourado as folhas das árvores e os rostos das pessoas. É nesse finzinho de tarde que os pardais retornam aos seus ninhos, enchendo as copas das árvores com sua algazarra. Bob, discreto como sempre, chegou atrasado à aula, o que não era seu hábito, apenas três minutos.

Para as regras do professor, que jamais transgredia em questões de horário, um atraso quase imperdoável, não fosse Bob o aluno que era; fez que não viu seu aluno favorito colocar-se discretamente ao lado de uma colega na última fileira da sala, adequando-se rapidamente ao ritmo das rotinas. Obedientes, sem se darem conta da chegada de Bob, os alunos seguiam com atenção os gestos do instrutor.

Do alto de seu tablado, ele regeu energicamente a matemática dos exercícios: “1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8”. Na praça central, sob a orquestra de pardais, o ancião principiou seu discurso. Pessoas se aglomeraram ao redor do banco. “Quem era?”, perguntavam. Ninguém o conhecia, portanto, seguramente, não era daquela cidade, não passaria despercebido aos moradores um homem tão velho e estranho, de barbas e cabelos longos como os dele.

Bob seguiu com facilidade o ritmo. Seus passos, bem guiados pelo instrutor, cumpriam a rigorosa coreografia: “…à frente, braços, direita, joelho…”, e assim sucessivamente. Ao final de cada série de oito movimentos para um dos lados, por exemplo, o leste, repetia-se toda a seqüência os demais lados, até nova ordem do instrutor para modificar a coreografia. A música imprimiu um ritmo frenético aos gestos, de modo que, aos poucos, mesmo suando em bicas, os alunos apresentavam nos rostos, expressões de alegria, dir-se-ia mesmo, de êxtase.

O ancião acompanhou com gestos eloqüentes de suas mãos enrugadas, palavras solenes e bem marcadas: “Sabem o que eles querem? Que sejamos todos iguais. Que um dia a gente não mais saiba distinguir uma pessoa da outra. Acabaremos confundindo irmão com irmão, mulher com mulher, criança com criança”. “Do que é que ele está falando?”, perguntaram os passantes. “Eles quem? Quem é que vai ficar igual?” O suor molhou o corpo de Bob e encharcou sua camiseta branca. A sensação do tecido colado à pele era deliciosa; a dedicação de Bob às aulas, comovente.

Um exemplo, digamos assim, a ser seguido por todos. Bob Estúpido, assim chamado carinhosamente por alguns colegas, sentia-se confortável naquele ambiente. Tímido, não precisava se expor. Diluía-se no grupo. Bastava deixar-se levar pelo ritmo, fazer igual a todo mundo, nunca fugir à coreografia. Causava alívio ser apenas mais um. Lá na praça, assustando os pedestres desprevenidos, o homem de barbas brancas discursava com ar de profeta.

Uma pomba esfomeada vasculhou migalhas ao pé do profeta. “Olhem esses pássaros. São sempre iguais, comem as mesmas coisas, mas essa é a natureza deles. Nós nascemos para ser humanos. Então vocês não percebem? Eles decidiram que seremos como as pombas, comeremos as mesmas coisas, teremos o mesmo paladar, gostaremos da mesma comida, aqui ou na China. Mas não somos pombas nem ovelhas. Não nascemos para ser dóceis e pastar a mesma grama, século após século”.

A noite caía, os pardais silenciavam. Uma senhora gordinha, lenço vermelho à cabeça, perguntou: “Quem são eles? Seja mais claro. Ou você é doido?” “Eles…”, respondeu-lhe o ancião, “…são as pessoas que querem convencer o mundo inteiro de que a melhor comida do mundo é a comida que eles vendem”.

E a senhora ainda perguntou: “E que mal há nisso?” Ao que o velho respondeu: “Um dia a gente não poderá escolher mais outro tipo de comida, não conseguirá, pois só gostará da comida deles. E o mundo perderá o sabor”. Na academia, o instrutor orgulhoso verificou a simetria impecável da turma, nem um passo dissonante, nem uma única contração muscular fora do tempo.

Os gestos eram rígidos e idênticos, bruscos, rápidos. Não se distinguia na turma Bob, Joana, Fulano ou Beltrano. Era um bloco só, uma massa de músculos, ossos, tendões, que se moviam em uníssono, um organismo perfeitamente afinado. Bob já não decidia seus gestos, apenas deixou-se conduzir ao sabor do ritmo próprio do grupo, tal qual uma canoa à deriva. Na praça, em torno do velho, a multidão diminuiu. Já não lhe davam crédito.

Os pardais silenciaram de vez, as árvores dormiram. Bastante rouco, mas mantendo a gravidade do discurso, o ancião ainda declarou: “E aguardem, porque, se tudo continuar sendo feito como eles querem, um dia toda a música será igual. As empresas deles dirão o que podemos e o que não podemos ouvir. E só ouviremos o que não dá trabalho, o que não causa esforço. A música não será mais para ensinar sobre a beleza, mas para distrair, para vender”.

Enquanto ele falava, os pedestres se retiraram para suas casas, para seus ninhos, e soltaram imprecações contra o velho homem. Se havia alguma coisa que envergonhava Bob, era praticar algum deslize, realizar algum gesto em desacordo com as frases musicais, com a simetria dos colegas ou com a coreografia exaustivamente ensaiada. Conhecia a bondade do professor e sabia perfeitamente que ele jamais ergueria a voz para repreender um aluno.

Não, não era isso que constrangia Bob, era ele mesmo, era o fato de que, sempre que alguém errasse, estaria fazendo alguma coisa diferente, e seria notado. Engraçado, porque quando Bob saía às ruas com sua camiseta colada à pele ou suas bermudas justas, muitas pessoas acreditavam que ele queria apenas ser notado, mas não se tratava disso. As roupas que ele usava somente aumentavam uma indefinível sensação íntima de prazer que os músculos hipertrofiados produziam.

Anoiteceu cedo, pois era inverno, e a praça ficou vazia. Havia poucos ouvindo o ancião, e esses poucos eram os que passavam ali ocasionalmente, portanto, não acompanharam desde o início o discurso profético do homem velho. Perplexos com a figura de longas barbas brancas o ouviram falar, gritar: “E não ficará nisso. Reparem que eles já decidiram o que podemos ver: as mesmas notícias, os mesmos filmes, as mesmas novelas.

Daqui por diante, eles decidirão o que é belo. Não nos caberá decidir mais nada. A cada ano anunciarão o tipo de mulher bonita, a propaganda definirá a roupa que deveremos usar e a televisão divulgará o modelo de corpo mais adequado para cada homem. Na academia o instrutor encerrou a aula. O cheiro de suor, um cheiro geral de suor impregnou o ar da sala. Os alunos, felizes, ofegavam. O professor agradeceu e todos aplaudiram.

Sem conversar, retiraram-se para o vestiário. Bob se sentiu feliz, profundamente feliz. Na praça quase vazia, o ancião tentava angariar ouvintes para sua pregação. Ele ainda lançou ao último expectador a derradeira profecia: “Um dia, todos os gestos de mão serão iguais, todos os passos se confundirão.” Cansado, Bob não demorou a cair num sono profundo. Na praça, o velho de barbas brancas acomodou-se no banco para uma noite mal dormida.

Bob Estúpido é um personagem criado pelo Prof. João Batista Freire

Prof. João Batista Freire
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Fonte:
www.decorpointeiro.com.br

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