Avaliação de características de atletas de forma segmentada pode desperdiçar talentos

Atletas femininas de vôlei seriam cortadas da seleção brasileira se tivessem suas aptidões avaliadas de forma individual. Uma pesquisa da Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) da USP verificou que o talento dessas jogadoras é definido pelo fenômeno da compensação, no qual algumas características ruins são compensadas por outras melhores, resultando num bom desempenho da atleta.”Uma baixa estatura em relação à média, por exemplo, pode ser compensada por uma boa impulsão vertical”, explica o preparador físico de vôlei Luiz Roberto Rigolin da Silva. Em sua pesquisa de doutorado ele comparou jogadoras da seleção brasileira adulta e infanto-juvenil com uma média dos escores de atletas de alto nível. Segundo ele, boa parte delas têm médias menores, apesar de seu excelente desempenho em quadra.A grande pressão ao identificar talentos muitas vezes faz com que esse fenômeno não seja considerado. “O talento é algo de grande complexidade, que não é determinado por apenas uma característica excelente, mas por um conjunto de compensações”, conta Rigolin.

Para a avaliação do funcionamento do fenômeno, o pesquisador utilizou dados de seis atletas da seleção brasileira adulta, e seis da infanto-juvenil. Foi montado um perfil de cada jogadora por meio de três conjuntos de variáveis: características antropométricas (como peso e altura), aptidão física (como força, velocidade e impulsão) e psicológicas, classificando-as como boas, medianas ou ruins. “É difícil identificar somente uma ou duas características determinantes para o desempenho de uma modalidade esportiva, o que evidencia a necessidade de olhar a questão de maneira interdisciplinar”, conta.

Foram utilizadas somente atacantes, pois outras jogadoras, como líberos e levantadoras, já possuem características diferentes. “Ao avaliar o perfil montado de cada jogadora para ver se ela é boa ou não, não encontramos nenhum modelo igual nas atletas adultas, e somente dois iguais nas infanto-juvenis”, conta o preparador. “O talento pode ser construído a partir de várias combinações e não significa, necessariamente, que o atleta tenha alguma característica com escores altos. A seleção de talentos não deve ser fragmentada, para que potenciais talentos não sejam jogados fora.”

Comparação

Para simular o problema de uma seleção de talentos, Rigolin elaborou uma média das características de dois grupos de atletas, também classificando suas aptidões em boas, medianas ou ruins. Um dos grupos era formado por 12 jogadoras adultas do mesmo nível das atletas da seleção e outro por 25 atletas infanto-juvenis, que foram cortadas na primeira seletiva da seleção brasileira.

O objetivo foi comparar individualmente as seis atletas adultas e as seis atletas infanto-juvenis, respectivamente, com as duas médias elaboradas. A atleta que apresentasse um resultado inferior à média estabelecida seria cortada. As características utilizadas foram a estatura e a impulsão vertical, consideras importantes para a prática do vôlei de ato nível. “Das seis atletas da seleção adulta, cinco seriam cortadas, assim como quatro da seleção infanto juvenil”, conta Rigolin.

Isso mostra que não existe um único perfil para jogadoras de vôlei de alto nível e que, principalmente em esportes coletivos, as questões da interação do conhecimento e da compensação de escores são muito importantes na identificação de talentos.

O pesquisador ressalta que a amostra utilizada reflete muito bem o universo analisado, que é pequeno, e que “além da compensação feita pelas próprias jogadoras por meio de suas características, ainda existe a compensação tática feita dentro das equipes, o que pode beneficiar ainda mais seu desempenho”.

 

Texto:
Juliana Cardilli / Agência USP

Fonte:
USP Notícias

 

 

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