Competição

Não foram os homens que inventaram a competição. E não se trata de invenção de algum espírito mau ou de mero capricho de pessoas egoístas. Pode ter sido apenas uma criação da vida para ela poder continuar se manifestando num planeta privilegiado para tanto: a Terra, esse planeta azul, isolado, enquanto lugar habitável, até onde alcança nossa visão telescópica nesta imensidão do universo.

Antes, há uns quatro bilhões e meio de anos, a comida era farta e disponível a todos os seres vivos. Havia criaturas de estrutura muito simples, unicelulares, que nunca morriam. Comiam, comiam, e cresciam. Quando estavam bastante grandes, dividiam-se ao meio e cada uma delas virava duas, depois quatro, depois oito e assim por diante. Esse processo chama-se mitose.

O alimento não faltava porque os oceanos onde moravam eram fartos. Daí, eram imortais. A criatura A não precisava de outra B para se multiplicar. Ela mesma virava A1 e A2 e continuava vivendo em cada parte sua que se separava. Havia muita comida, não havia problemas, a inteligência podia ser simples. Ora, de tanto comer, crescer, dividir-se, o nosso habitante primevo foi acabando com a fartura. Chegou um tempo em que havia mais criaturas que comida. Foi quando apareceram problemas. Surgiu o problema básico de todo ser vivo: sobreviver. Se todos os seres eram iguais, como podiam dar conta de situações diferentes? Somente uma atitude diferente serve à situação diferente. Portanto, era preciso criar a diferença, pois o grande problema, obter a comida, era um problema diferente de tudo o mais que existia no mundo dos nossos ancestrais.

A comida já não daria para todos e somente uma parte poderia se servir dela. Mas, qual? Aqui e ali começaram a surgir pequenas modificações nesses unicelulares. Se a criatura A tivesse alguma diferença da criatura C, ao se encontrarem, poderiam trocar alguma coisa (só é possível trocar diferenças). Uma ranhura de A se relacionando com uma reentrância de C podia fazer com que uma e outra pudessem se contactar. De tal modo que A, por exemplo, podia deixar alguma coisa sua em C. E aí, sabem o que aconteceu? Do encontro entre A e C nasceu D. D nasceu com as propriedades de A, com as propriedades de C e com a vantagem de ser diferente de ambos. Em compensação, o nascimento de D acarretou a morte de A e C.

Nesse instante a natureza havia criado, entre os seres vivos, o sexo e a morte. De qualquer maneira, muito possivelmente A e C já estavam condenados à morte. Todas as criaturas vivas, incapazes de lidar com situações diferentes, estavam condenadas à morte. A igualdade não dava conta da diferença. A criação da diferença, pela natureza, foi a criação do sexo, da possibilidade de trocas. A morte de A e C era a garantia da perpetuação da vida na Terra. A morte preservou a vida. Quando D nasceu, finalmente surgiu uma diferença significativa, que já se anunciava em A e C. Finalmente haveria uma criatura que poderia (ou não) dar resposta à nova situação, à escassez de comida. De todos esses que nasciam diferentes, alguns conseguiriam se alimentar, outros morreriam.

Somente os que fossem mais aptos, aqueles que tivessem as diferenças mais adequadas para as novas situações, sobreviveriam. A partir de então, os seres vivos teriam que competir pela comida. Nunca mais o alimento seria farto. Nunca mais o alimento chegaria à boca da criatura gratuitamente. Daí por diante, cada qual teria que obtê-lo com esforço, com trabalho. Nenhum, que não fosse inteligente para dar conta dos problemas de adaptação que surgissem, sobreviveria. E assim as espécies foram se sucedendo, e há, hoje, muito mais espécies mortas que vivas, entre aquelas que integram a história da manifestação da vida na Terra. Vejam que se trata de uma história antiga. Realmente antiga, se considerarmos que o universo tem cerca de 15 bilhões de anos e esta história começou há mais de quatro bilhões.

É preciso dar saltos enormes, pular significativos lapsos de tempo, para incluir em poucas páginas de papel aquilo que nos interessa considerar. Vamos dar um pulo no mundo dos dinossauros, criaturas que dominaram o mundo vivo há uns 200 milhões de anos atrás. Vorazes, porque grandes e comilões, habitaram todo o planeta e comeram tudo o que havia à sua volta. Alguns eram herbívoros, mas boa parte era de carnívoros. Quanto mais visíveis os outros animais, mais vulneráveis à fúria dinossauriana eram. Ser pequeno e invisível constituía poderosa arma na luta pela sobrevivência. Competir em força com os enormes répteis seria o fim da linha. Competir em astúcia, em inteligência, porém, poderia levar ao êxito.

Assim é que, há uns 60 milhões de anos ou mais, viveu um pequeno roedor, um tipo de Mussaranho, bicho esperto e de hábitos noturnos, que escapou à perseguição dos dinossauros. É claro que, vivendo à noite, não podia depender da visão. Seu olfato, no entanto, era extraordinário. E, sobreviver era tão difícil, que ele foi hipertrofiando o olfato, a tal ponto que seu sistema nervoso foi se tornando mais e mais complexo, permitindo-lhe, segunto tudo indica, que se tornasse um fantástico apreciador de cheiros. Ou seja, cheirar bem era tão vital que seu sistema nervoso teve que desenvolver estruturas muito complexas para interpretar os odores que chegassem ao seu nariz.

Um dia, certamente por conta de alguma catástrofe, os temíveis dinossauros começaram a ter problemas de adaptação. Dizem que foi um imenso meteoro que caiu sobre a Terra, modificando condições climáticas de forma muito radical. Alguma coisa de realmente grande aconteceu, pois, no prazo de alguns milhões de anos, não havia mais um exemplar sequer de dinossauro. O mussaranho acordou um dia sem a cotidiana ameaça ao seu redor. Pôde sair à luz, certamente desconfiado, mas sem perigo. Ser pequeno e ser dotado de um nariz privilegiado, salvaram-no até aquele dia. Outras ameaças surgiriam, mas, de momento, estava salvo. De alguma maneira, ele vencera a competição contra animais muito maiores e mais fortes.

Na história da evolução das espécies vivas, não venceu a força de músculos. Que semelhança tem um Mussaranho com um Homem? Nenhuma, aparentemente. Mas, alguém acredita realmente que a Natureza seja burra? Eu, particularmente, acho que a Natureza não apenas não é burra, como é extremamente econômica. Se ela tivesse que criar, para cada espécie viva, da Ameba ao Homem, estruturas completamente diferentes, eu seria o primeiro a duvidar de sua inteligência. Mas, não foi isso que ela fez. Creio que uma outra espécie poderia ter resultado no Homem. Foi o Mussaranho, como poderia ter sido um réptil, ou um peixe, ou roedor ou ave.

Na verdade, isso nem importa muito discutir aqui, por que estamos preocupados em seguir somente o curso da evolução da competição, e não o da história evolutiva do Homem. Apenas mencionei o fato para mostrar que não é estranho que um animal parecido com um rato tenha resultado no Homem. A inteligência é a chave do sucesso na sobrevivência. Essa história de dizer que o Homem é o mais inteligente dos animais, é uma história típica do antropocentrismo. Por mais que nos vangloriemos de nosso pensamento, de nossa poesia, de nossa arte ou ciência, não temos a menor garantia de êxito enquanto espécie viva.

Ainda invejamos as pulgas e as baratas com suas centenas de milhões de anos de sucesso. Os mais inteligentes vencem a competição pela vida. Se o tema deste texto fosse a cooperação e não a competição, certamente eu só teria que mudar alguns nomes e nada mais, porque foram os mais inteligentes que se organizaram na cooperação pela vida. 


Prof. João Batista Freire
contato@decorpointeiro.com.br

Fonte:
www.decorpointeiro.com.br

 

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