Cronobiologia e suas Aplicações na Prática Médica

RESUMO

A partir da constatação de que certos fenômenos biológicos ocorriam sistematicamente de forma cíclica e regular durante as fases do dia, do ano e do desenvolvimento dos seres vivos, surgiu a cronobiologia, a qual vem se destacando nas últimas décadas como um ramo das ciências biológicas. A cronobiologia estuda os determinantes da ritmicidade temporal dos fenômenos fisiológicos e bioquímicos que se relacionam às diversas horas do dia. Nesta revisão, os autores abordam os conceitos fundamentais da cronobiologia, exemplos de ritmos circadianos, situações clínicas, aplicações em medicina do trabalho, aspectos neuronais anatômicos e do funcionamento do(s) “relógio(s) biológico(s)”, a interrelação e ontogênese dos ritmos biológicos, além das possíveis aplicações de tais aspectos fisiológicos da espécie humana na prática médica atual, como a prevenção do infarto agudo do miocárdio nas primeiras horas da manhã.

Unitermos: Cronobiologia, Ritmos circadianos, Relógio biológico

MECANISMOS DE ADAPTAÇÃO TEMPORAL

O entendimento das relações temporais dos fenômenos fisiológicos com o meio ambiente é fundamental para a compreensão dos mecanismos adaptativos dos seres vivos. Deste modo, na maioria das espécies, podemos observar ritmos, que se caracterizam como estados funcionais que variam periodicamente no tempo.

Muitos ritmos biológicos são associados a um ciclo geofísico, o mais evidente é o ciclo claro/escuro (CE). Este ciclo periódico possui o sinal ambiental luminoso para que o marcapasso circadiano humano seja sincronizado com as 24 horas-dia, sendo que a duração do período do ritmo circadiano pode variar de 20 a 28 horas.

Os ritmos não-circadianos são agrupados em: infradianos ou ritmos de baixa freqüência, com períodos maiores que 28 horas, como, por exemplo, o ciclo menstrual e a produção de plaquetas no sangue de mamíferos. Já os ritmos ultradianos, ou oscilações de repetições rápidas, com períodos menores que 20 horas, como, por exemplo, a secreção de insulina e glucagon em humanos, cujos períodos têm duração entre 70 e 140 minutos1.

A endogenicidade dos ritmos proporciona uma capacidade antecipatória, que permite organizar recursos e atividades antes que sejam necessários, como a preparação para a vigília em humanos, que implica na liberação de cortisol e elevação da temperatura interna nas últimas etapas do sono.

Ao fator cíclico ambiental, que promove o arrastamento ou sincronização dos ritmos biológicos com o ambiente, foi dado o nome de “Zeitgeber”, neologismo alemão que significa “doador de tempo”, ou sincronizadores, ou arrastadores. Para a maioria dos organismos, o “Zeitgeber” mais importante dos ritmos circadianos é o ciclo claro/escuro. No entanto, outros fatores cíclicos também agem como sincronizadores, como, por exemplo, ciclos sociais, ciclos de temperatura e ciclos de alimentação. Os “Zeitgebers” da luz e do fator social são investigados pelos seus papéis na formação, prevenção e tratamento de alterações na saúde2.

Em condições ambientais constantes e invariáveis de laboratório, em regiões polares (como a Antártida) ou ainda em indivíduos cegos, diversos ritmos biológicos continuam a se expressar durante dias, meses ou anos, dependendo da espécie e das condições experimentais. Estes ritmos são conhecidos como ritmos em livre curso e são a expressão de relógios biológicos endógenos. Nestas condições, o período torna-se ligeiramente diferente daquele exibido em condições naturais3, pois não há nenhum sinal ambiental sincronizador.

Foram observados ritmos em livre-curso da produção e excreção de melatonina, cortisol, sódio e potássio em homens saudáveis, durante o inverno, numa pequena base da Antártida, período este que não apresenta luz solar. Sendo que na primavera, quando o sol reapareceu, todos os ritmos foram novamente sincronizados de acordo com a luz do dia. Estes resultados ajudam a confirmar que os ritmos circadianos podem cursar livremente, mesmo quando os indivíduos têm o conhecimento da hora do dia; e dentro de grupos pequenos os indivíduos podem manter períodos de livre-curso únicos4.

 MECANISMOS NEURONAIS DA RITMICIDADE CIRCADIANA

O papel central de geração das oscilações rítmicas nos mamíferos é determinado pelos núcleos supraquiasmáticos (NSQ) do hipotálamo anterior.

Numerosos trabalhos, a maioria em roedores, demonstram vários aspectos dos mecanismos fisiológicos pelos quais os NSQ funcionam como marcapasso circadiano, sendo evidenciados por uma atividade metabólica e elétrica rítmica mantida tanto ” in vitro” como “in vivo”5. Foi demonstrado que lesões bilaterais nos NSQs de mamíferos alteram ou eliminam os ritmos circadianos de secreção de vários hormônios como cortisol, aldosterona, GH (Hormônio de Crescimento), LH (Hormônio Luteinizante), bem como ritmos de atividade locomotora e de ingestão de água e alimentos, além do ritmo circadiano de temperatura corporal, atividade sexual e ritmo ultradiano do sono de ondas lentas, que também se relacionam com alterações no ciclo sono-vigília. Além disso, o transplante de NSQ fetal (entre roedores), para receptores previamente enucleados é capaz de restaurar a ritmicidade circadiana destes, demonstrando, mais uma vez, o papel relevante, mas não único e exclusivo, dos NSQ na temporização dos ritmos biológicos de mamíferos6.

Como o ciclo claro-escuro parece ser o principal estímulo ambiental de arrastamento do relógio biológico em mamíferos, supõe-se que existam vias evidentes entre a retina e o NSQ. Esta projeção fótica retiniana, parte de neurônios ganglionares retinianos específicos, juntamente com as fibras do nervo óptico, recebem o nome de trato retinohipotalâmico (TRH), conectando-se com quase toda a extensão do NSQ. Existem evidências indiretas de que o neurotransmissor desta via é o glutamato, agindo em receptores NMDA e AMPA do NSQ7.

O mecanismo de funcionamento dos NSQs ainda não é inteiramente conhecido, mas sabe-se que envolve a participação de osciladores autônomos celulares e a interação entre as populações neuronais e gliais8,9. As entradas dos neurônios no NSQ são especializadas para desencadear respostas duradouras intracelulares de acordo com a variação da luminosidade que ocorre por volta do amanhecer e do anoitecer.

As eferências do NSQ voltam-se para outras áreas do hipotálamo; como regiões do núcleo paraventricular ventro e dorsomedial (NPV), hipotálamo posterior, além de projeções para rafe, tálamo, núcleo arqueado e área pré-óptica. Além disso, há evidencias indiretas de um controle do NSQ sobre a adenohipófise, através de uma população de células da eminência mediana contendo dopamina, que são inervadas pelo NSQ. Isto não implica em nenhum efeito direto do NSQ sobre a adenohipófise, mas oferece uma via indireta através dos sistemas neurais hipotalâmicos que podem regular a secreção hormonal hipofisária, particularmente a de prolactina10,11.

 Figura 1. Esquema mostrando a posição dos NSQs no Sistema Nervoso Humano (segundo Menna-Barreto. 1995 – Cronobiologia)

O papel dos NSQs na geração dos ritmos circanuais ainda permanece obscuro, mas sabe-se que sua população de neurônios sintetizadores de vasopressina exibe uma ritmicidade tanto diurna, com picos populacionais no início da manhã, como uma ritmicidade sazonal, com picos no verão e outono. No entanto, esta organização temporal torna-se pouco evidente nas idades mais avançadas do homem12.

Os relógios biológicos circadianos são acoplados com outros geradores de ritmos infradianos e o mais evidente deles é a glândula pineal, produtora do hormônio melatonina, que age como um possível sincronizador interno do sistema circadiano. A melatonina é produzida na fase de escuridão ambiental, coincidente ou correspondente com a noite subjetiva do organismo, segundo seu relógio biológico, e tem sua secreção inibida quando há presença da luz. No entanto, a luz fluorescente, presente em casas e locais de trabalho, com uma intensidade de cerca de 200 a 400 lux, não suprime a secreção do hormônio. Parece que a fotoinibição noturna da pineal é mediada, pelo menos em parte, por conexões desta com o folheto intergeniculado talâmico (FIG)13.

O estresse e o exercício físico em humanos podem aumentar as concentrações plasmáticas de melatonina. Assim, nos mamíferos, a pineal é considerada um órgão endócrino com propriedades de transdutor neuroendócrino, porque a informação fótica canalizada através de um sinal da via simpática chega à glândula e regula a secreção de melatonina14.

Sugere-se sugerido que a melatonina atue diretamente nos NSQs, provocando diminuição de sua atividade metabólica durante a noite subjetiva, ligando-se possivelmente a receptores Mel 1a, cujo RNAm pode ser detectado em neonatos humanos15. O arrastamento dos ritmos circadianos da atividade locomotora e temperatura corporal, pela melatonina ou por agonistas nonindólicos desta, tem implicações terapêuticas em desordens circadianas de “jet lags” (vôos transcontinentais) e desordens do sono de origem circadiana15,16. Em certas espécies de mamíferos, a secreção de melatonina tem fortes influências sobre os ritmos circanuais da atividade reprodutora, mas ainda não há evidências conclusivas na espécie humana.

INTERRELAÇÃO ENTRE RITMOS

O conceito de que os ritmos circadianos, infradianos e ultradianos são interdependentes e que ocorre uma intermodulação entre estes, de modo que vários ritmos ultradianos ,por exemplo, podem resultar num ritmo de maior duração, é bem aceito atualmente e foi proposto, primeiramente, por Franz Halberg, em 195914, sendo esta visão mais abrangente indispensável para uma correta compreensão da fisiologia cronológica. Os ciclos de batimentos cardíacos, de pulsos hormonais hipofisários, de sono-vigília e o ciclo menstrual reprodutivo são exemplos de ritmos de diferentes frequências que se modulam entre si e com outros ritmos biológicos14.

Como já citado, certos ritmos ultradianos como a secreção de GH, LH e prolactina são, caracteristicamente, influenciados pelo ritmo do ciclo sono-vigília, ocorrendo um aumento da amplitude dos picos de secreção de GH, dependendo da hora em que o sono ocorre. Os maiores picos de GH, durante o sono, estão principalmente no período em que ocorre o sono de ondas lentas (estágios III e IV) nas primeiras horas de sono.

Estudos em humanos e roedores mostraram que injeções de Hormônio Liberador do Hormônio de Crescimento (GHRH) aumentam a quantidade deste tipo de sono e diminuem a vigília17. Coincidentemente ou não, a diminuição na secreção de GH, que acontece pela 4a década de vida, ocorre concomitantemente com uma diminuição da quantidade deste tipo de sono. Já os ritmos noturnos de secreção de insulina e glucagon estão relacionados com os episódios de sono REM e sono não-REM. Ocorrem picos dos 2 hormônios a cada 70-140 minutos, preferencialmente, no início do sono REM, evidenciando uma modulação do Sistema Nervoso Central (SNC) sobre as células a e b do pâncreas endócrino1. Ainda sobre os efeitos do ciclo circadiano de sono-vigília sobre os ritmos ultradianos, temos que a taxa de sono REM e a latência deste são fortemente influenciados pelo ritmo circadiano de temperatura, bem como a preferência pela hora de dormir18.

Em meninas pré-púberes, ocorre um aumento de cerca de 4 vezes na amplitude dos pulsos de LH após o início do sono, em relação ao período de vigília, com tendência à estabilização da amplitude destes pulsos entre as fases de sono e vigília nas meninas em fase de puberdade tardia19.

Os ritmos reprodutivos humanos, como o ciclo menstrual feminino e a espermatogênese, sofrem variações sazonais, que são evidenciadas pelas diferentes freqüências de nascimentos observadas em certas épocas do ano. Estes ritmos reprodutivos parecem sofrer influência de 3 fatores ambientais: (1) a indisponibilidade de alimento ou o grande gasto energético para obtê-los – é o que pode acontecer em comunidades subsistênciais dependentes das épocas de chuva, como em certas comunidades indígenas e certas comunidades carentes do sertão nordestino brasileiro – leva a um atraso da menarca, aumento do período de amenorréia lactacional e diminui a freqüência de ciclos ovulatórios; (2) altas temperaturas de certas estações do ano agem inibindo a espermatogênese em homens com roupas que dificultam o resfriamento escrotal e; (3) influências do fotoperíodo na atividade reprodutiva das comunidades das médias e altas latitudes, sendo, este último fator, um pouco controverso entre os neuroendocrinologistas20.

Foram avaliados os ritmos circadianos, semanais, menstruais, lunares e anual da atividade motora em uma mulher saudável e inferiu-se que ocorrem avanços e atrasos de fase, relacionados com os fins de semana, além de alterações no horário de início e fim das atividades relacionadas com o ciclo menstrual. Nota-se que ocorre uma diminuição das atividades motoras por volta do meio do ciclo menstrual (10º ao 17º dia) devido a um despertar mais tardio e a um adormecer mais precoce. A gênese do ciclo sono-vigília no homem é um bom exemplo de interrelação entre ritmos ultradianos, circadianos e infradianos. No entanto, o modo como cada ritmo age para determinar alterações nos outros ainda é pouco esclarecido.

ONTOGÊNESE DA RITMICIDADE CIRCADIANA

Entende-se por ontogênese a origem e o desenvolvimento de um organismo individual, englobando desde a fecundação até a vida adulta, inclusive as transformações que se sucedem ao longo de toda sua vida.

Dentro desse parecer, é importante salientar o estabelecimento da ritmicidade biológica, sua sincronização com os eventos ambientais e as transformações que os ritmos biológicos sofrem21. Atualmente, existem descrições consideráveis dos padrões rítmicos de algumas variáveis fisiológicas em recém-nascidos e crianças em desenvolvimento.

Estudos em roedores demonstram que o sistema circadiano materno coordena o tempo de desenvolvimento do relógio para o ciclo claro-escuro presente em fetos prematuros e tardios; existindo, assim, uma comunicação materna que assegura o desenvolvimento fetal. Este desenvolvimento é coordenado pelos estímulos externos até a maturação da via cronobiológica para o estímulo luz-escuro em adultos, via retinohipotalâmica, que permite o estímulo fótico direto em neonatos22.

Dados quantitativos de funções fisiológicas, em relação ao sistema circadiano em bebês prematuros, são relevantes e podem facilitar a avaliação de fatores que melhoram as respostas terapêuticas, recuperações e resultados de pacientes em cuidado intensivo neonatal. Estudo realizado pela Universidade de Stanford, verificou o ritmo biológico e a influência de fatores ambientais no tempo e sincronização de diferentes eventos com importantes implicações na saúde neonatal. Encoutrou uma baixa amplitude do ritmo circadiano para temperatura da pele e retal. Em todos os bebês, a ritmicidade circadiana dominou, além disso, algumas variáveis fisiológicas, traçadas durante a alimentação, diferiram significativamente de valores obtidos em períodos, durante os quais, intervenções médicas não ocorreram23.

A possibilidade da existência de um ritmo circadiano endógeno em bebês prematuros humanos foi evidenciada em estudos, quando sob condições constantes de luz, alimentação intra-gástrica a cada 2 horas e temperatura de incubação constante foi achado um ritmo circadiano significante na temperatura corporal e ritmo cardíaco em mais de 50% dos bebês24. Há estudos, em bebês prematuros, que tornam possíveis algumas deduções sobre a origem dos ritmos fetais no terceiro trimestre de gravidez25.

Em relação à sincronização do relógio fetal com o sistema de temporização materna, observou-se que a coordenação materna diminui após a primeira semana de vida pós-natal, à medida que os filhotes começam a responder diretamente à luz pelo trato retinohipotalâmico, em amadurecimento neste período26.

Essa mudança de um sincronizador materno para um ambiental (ciclo claro-escuro) não representa uma passagem da estabilidade do feto para uma flutuação, mas uma provável capacidade de arrastamento fetal com conseqüências adaptativas, visando o preparo do organismo para características temporais do novo ambiente que irá enfrentar21.

Mudança na ritmicidade circadiana, em relação à idade, também tem sido observada em outros mamíferos. Em hamsters, observou-se que 2 estímulos diferentes (benzodiazepínicos e pulsos de escuro) induzem mudanças no relógio circadiano de animais jovens, resultando em mudança nos níveis de atividade locomotora, porém não induzem mudanças de fase em animais velhos27.

Um último tópico, não menos importante, que deve ser analisado ao longo da ontogênese da ritmicidade biológica, é a questão das diferenças individuais. A variabilidade individual pode estar relacionada ao modo de alimentação (mamadeira ou seio materno), sexo, número de filhos na família, entre outras possibilidades. A ordem de grandeza dessa variabilidade impede a detecção de tendências ontogenéticas, quando são comparadas populações distintas, e neste caso, recorre-se aos estudos longitudinais como solução metodológica possível21.

APLICAÇÕES DA CRONOBIOLOGIA NA PRÁTICA MÉDICA

A Cronobiologia tem importantes implicações em todas as áreas da medicina. Atualmente, em vista das evidências disponíveis, é imperdoável a indiferença do médico frente a estes “novos” conhecimentos na prática de sua profissão. A cronobiologia pode ser aplicada na organização de atividades sociais, escolares em fábricas e escritórios que necessitam de trabalho em turnos.

Em relação às atividades escolares, verifica-se períodos de menor desempenho intelectual das 8:00hs às 9:30hs e logo após o almoço ou início da tarde. Por outro lado, o desempenho intelectual aumenta em torno das 11:30hs e alcança um pico entre às 15:00hs e 17:00hs28. Considerando-se as atividades nas fábricas e escritórios, é importante ressaltar a relação da inversão do horário de trabalho e suas nefastas conseqüências para a saúde. Essa inversão modifica a ordem biológica interna, os costumes sociais e as relações familiares dos trabalhadores30. Foi encontrado, em trabalhadores de turnos alternantes, um maior risco para doença arterial coronária, provavelmente devido a maiores níveis séricos de triglicérides e maior freqüência de tabagismo entre estes trabalhadores30. Tais trabalhadores apresentam uma maior sonolência referida tanto subjetivamente, como observada fisiologicamente devido a fatores fisiológicos circadianos.

Esta sonolência aumentada pode representar perigo para os trabalhadores e para a sociedade, podendo ser a responsável por vários acidentes de trabalho31. Com relação à adaptação ao trabalho, em turnos alternantes de acordo com o sexo, sabe-se que as mulheres experimentam mais distúrbios do sono do que os homens e sofrem mais de sonolência durante o trabalho, especialmente quando trabalham em mudança de turno pela manhã. Além disso, conseqüentemente ou não, sofrem mais de sintomas psiconeuróticos, digestivos e circulatórios do que seus companheiros de trabalho do sexo masculino32.

O planejamento de um sistema de turnos deve seguir algumas recomendações: (1) o trabalho noturno deve ser reduzido o máximo possível; se não for possível, deve-se dar preferência a sistemas com turnos mais alternantes para cada trabalhador do que a sistemas lentos (menos rotativos ou alternantes) onde o trabalhador acaba por adaptar seu relógio biológico pouco antes de ser trocado de turno, sofrendo mais ainda com a troca; (2) longos períodos de trabalho (9-12hs) devem ser evitados, a menos que a natureza do trabalho seja sutil; (3) início muito cedo, pela manhã, deve ser evitado, embora deva-se manter a flexibilidade administrativa para permitir que os trabalhadores façam ajustes de preferências de turno e (4) o número de dias de trabalho deve ser limitado a 5-7 dias antes de cada folga e deve haver sempre alguns finais de semana com, pelo menos, 2 dias livres33.
É relevante destacar as aplicações da cronobiologia no diagnóstico e terapêutica de certas doenças. A imunologia de transplantes mostra ritmos circadianos e semanais na rejeição de órgãos transplantados. Além disso, ritmos de susceptibilidade a uma série de alergenos e sintomas de asma brônquica são caracteristicamente cronobiológicos, assim como a recorrência dos sintomas de artrite reumatóide34.

A aplicação da cronobiologia no tratamento dos pacientes constitui a cronoterapia. Por exemplo, a ocorrência normal circadiana de eventos, tais como as quedas na concentração plasmática de adrenalina e cortisol, que ocorrem por volta das 22:00hs até às 4:00hs e a elevação na concentração de histamina e outros mediadores entre a meia-noite e às 4:00hs podem ter um papel crucial na piora da asma durante a noite35. Cronofarmacologicamente, sabe-se que fármacos de ação cardiovascular, anti-asmáticas, anti-neoplásicas, psicotrópicos, analgésicos, anestésicos locais e antibióticos apresentam variações em suas farmacocinéticas dependendo da hora do dia em que são administrados. Estas variações devem-se, parcialmente, a mudanças cíclicas circadianas na velocidade de absorção intestinal, metabolismo hepático, eliminação renal e variações hemodinâmicas36,37.

Várias doenças cardio-cerebrovasculares não ocorrem com periodicidade casual, mas apresentam um tempo crítico predito de recorrência ultradiana, circadiana ou infradiana em seus sintomas iniciais. As horas iniciais da manhã até o meio-dia, os fins de semana e o inverno parecem ser o período de maior risco, já que uma variedade de processos fisiológicos, que poderiam iniciar o processo patológico, estão intensificados, além de condições ambientais e comportamentais que contribuem para tal38,39. No entanto, observações clínicas têm demonstrado o efeito de b -bloqueadores em modificar a ocorrência circadiana de uma variedade de eventos isquêmicos40.

Existe um tipo de depressão que pode ser considerada como uma disfunção primária dos ritmos biológicos. Os pacientes com síndrome afetiva sazonal demonstram uma resposta exagerada à mudança das estações que, dependendo da estação, pode alcançar severas proporções, enquadrando-se nos critérios usuais de depressão endógena. Este tipo de depressão, possivelmente, manifesta-se quando a quantidade de horas de claro por dia fica abaixo de um certo valor crítico. Assim, pelo fato de que, possivelmente, trata-se de um efeito circadiano da luz incidente, usa-se um tratamento baseado na exposição do sujeito a luz artificial, tendo em vista recuperar suas relações de fase claro-escuro corretas com os ciclos ambientais. Além de recuperar também outros ritmos internos como o de temperatura corporal e o ritmo atividade/repouso, os quais usualmente se encontram desordenados também em certos tipos de depressão41,42. Já em estados maníacos, ocorrem anormalidades circadianas e neuroendócrinas parecidas com as da depressão, como alterações na atividade corticotrópica e elevação da concentração plasmática noturna de cortisol, mas tais alterações são menos severas do que as da depressão maior43.

Os tratamentos com luz brilhante também são utilizados para pacientes com desordens do sono dessa natureza, como síndrome de “jet-lag”, trabalhadores noturnos e síndrome do sono de fase atrasada44. Estudos têm mostrado que o uso de benzodiazepínicos de curta ação, como o triazolam, podem ter efeitos significativos, tanto nos ritmos comportamentais como nos ritmos circadianos endócrinos, podendo serem usados como auxiliares no tratamento de tais desordens e no tratamento da insônia, pois encurtam o tempo necessário para a ressincronização do relógio biológico ao novo ritmo do ciclo claro/escuro45,46. Já o álcool, por outro lado, tem uma ação contrária, causando a fragmentação do sono, particularmente no final da noite, e uma diminuição do sono REM47.

O padrão de liberação de hormônios sexuais e gonadotróficos também apresenta variações cronobiológicas. As mudanças mais surpreendentes, na secreção do GnRH na puberdade, ocorrem de maneira ultradiana e circadiana. A resposta da secreção de LH, à estimulação pelo GnRH sintético, está diretamente relacionada à freqüência da estimulação pelos pulsos de GnRH endógeno e fornece um índice muito útil da maturação neuroendócrina em pacientes com puberdade tardia ou puberdade precoce48. Além disto, o padrão plasmático de testosterona, no início da manhã, é um índice preditivo acurado que indica desenvolvimento puberal iminente. Em pacientes com níveis maiores ou iguais a 0,7nmol/l, a entrada na puberdade ocorreu dentro de 12 meses em 72% e em 15 meses em 100% dos pacientes49. Na mastologia são interessantes os trabalhos relacionando a taxa de recorrência do câncer de mama e a época do ciclo menstrual em que foi feita a primeira ressecção do tumor, chegando-se à conclusão de que os tumores ressecados nos dias periovulatórios foram os que apresentaram menor taxa de recidiva50.

 

ABSTRACT

After realizing some biological phenomena happened sistemattically in a ciclic and regular way during periods of the day, year and life beings’ development, rised Chronobiology, which has been assumed important role as a part of Biological Sciences at last decades. Chronobiology studies the determinants of temporal rithmicity of physiological and biochemical phenomena, wich relate to the several times of the day. In this review, the autors aproaches the fundamentals concepts of Chronobiology, examples of circadian rithms, clinical situations, aplications on Occupational Medicine, neural aspects of the “biological(s) clock(s)” anatomy and physiology, interrelations and ontogenesis of biological rythms and the possible aplications of such human phisiological aspects in the current Medical Practice, like, e. g. , prevention of myocardial infarction in the first hours of the morning.

Uniterms: Chronobiology, Circadian rythms, Biological rythms

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Autores:

William da Silva Neves1
Rogério Yukio Morioka1
Ana Cláudia Koga1
Flávia Aparecida1
Joel Joveli Júnior1
Jérri do Carmo Caldeira²

1. Acadêmicos de Medicina da Facudade de Medicina de São José do Rio Preto (FAMERP).
2. Docente da Disciplina de Fisiologia. Departamento de Biologia Molecular – FAMERP.
Trabalho realizado na Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto, SP (FAMERP)

 Fonte:

Revista HB Científica – Vol.7 – Nº1 – Janeiro/Fevereiro/Março/Abril de 2000

 

 

 

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