Desigualdade social no comportamento de saúde do brasileiro

Um estudo desenvolvido na Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp analisou os atuais padrões de comportamentos relacionados à saúde, apontando que eles estão definindo, a curto e médio prazo, o futuro perfil dos riscos de incidência de doenças e mortes no Brasil. O estudo transversal de base populacional – realizado a partir dos dados de 49.025 brasileiros, entre 20 e 59 anos – demonstrou ainda, como as desigualdades sociais, relacionadas a esses comportamentos, estão determinando, concomitantemente, as desigualdades sociais na morbidade e na mortalidade dos indivíduos.

“É muito importante analisar esses comportamentos em saúde porque eles respondem por parte significativa de mortes precoces, ao constituírem fatores de risco para doenças cardiovasculares, neoplasias, acidentes e violências”, afirma a epidemiologista Marilisa B. A. Barros, que assina a publicação com Margareth Guimarães Lima, Lhais de Paula Barbosa Medina, Celia Landman Szwarcwald e Deborah Carvalho Malta.

Os resultados da pesquisa estão no artigo intitulado Desigualdades Sociais nos comportamentos de saúde em adultos brasileiros: Pesquisa Nacional de Saúde, 2013”, publicado no mês passado, no International Journal for Equity in Health (IJEH). A publicação analisa as desigualdades sociais em Saúde no Brasil, utilizando dados obtidos na Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), realizada em 2013, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em parceria com o Ministério da Saúde.

Na pesquisa, foram analisados comportamentos relacionados à saúde, entre eles, o tabagismo, o consumo abusivo de álcool, o sedentarismo; e o consumo de frutas, verduras, legumes, leite e carne. Os resultados revelaram que 7,6% dos brasileiros adultos não apresentam, ou apresentam apenas um comportamento não saudável; 53,3% dessa população apresentam escore de comportamentos não saudáveis entre 4 e 6; e 13% apresentam escore acima de 7.

“Adultos de menor escolaridade, auto classificados como pretos e pardos, e que não dispunham de plano privado de saúde, apresentaram prevalências mais elevadas de tabagismo, de inatividade física e sedentarismo, com menor consumo de frutas e hortaliças, e maior consumo de leite tipo integral”.

O consumo de carne com excesso de gordura também foi, significativamente mais frequente, nos segmentos com pior nível de escolaridade e nos adultos sem plano privado de saúde. E maior prevalência de consumo abusivo de álcool foi encontrada nos adultos pretos ou pardos.

“A pontuação mais elevada para comportamentos não saudáveis (de 7 ou mais) foi 3,7 vezes maior no grupo de menor nível de escolaridade, 39% maior na população negra e 78% maior no segmento sem plano privado de saúde, comparados, respectivamente, com os estratos de melhor escolaridade, brancos e que possuem planos de saúde”, explica.

Marilisa lembra que os comportamentos em saúde não resultam, apenas, de decisões pessoais, porque eles são socialmente estimulados e difundidos. O monitoramento da prevalência de práticas não saudáveis nos vários segmentos sociais da população – de acordo com ela – é fundamental para a avaliação e a reorientação, se necessário, das intervenções e estratégias voltadas ao controle e prevenção das doenças crônicas no país.

“Os resultados do estudo apontam para a importância de ações de promoção da saúde por parte dos serviços de saúde, propiciando informação sobre os benefícios e a prática de comportamentos saudáveis, em especial, aos segmentos socialmente desfavorecidos, e que estão em clara desvantagem quanto ao padrão de comportamentos mais saudáveis”, finaliza.

 

Texto: www.unicamp.br

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