Dieta rica em gorduras na gestação desencadeia disfunções metabólicas

Testes feitos em laboratório da FCM mostram a importância da programação fetal

Dissertação de mestrado do biólogo Luiz Fernando Possignolo, desenvolvida na Faculdade de Ciências Médicas (FCM), mostrou que a dieta materna hiperlipídica (rica em gorduras) para roedores, durante períodos críticos do desenvolvimento da prole, levou os filhotes a terem alterações metabólicas na vida adulta. Eles apresentaram resistência à insulina, hipertensão e alterações na expressão de proteínas ligadas ao transporte de colesterol e à via inflamatória. Apesar dos experimentos serem feitos com animais, existem estudos na literatura avaliando mulheres com alterações de dieta que já demonstram doenças metabólicas e que poderão levar efeitos sobre os filhos.

Foi o que sugeriu essa pesquisa ainda preliminar que teve a orientação do docente da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) José Antonio Rocha Gontijo e coorientação da pesquisadora Adrianne Palanch.

Esse período crítico ocorre na gestação pelo fato de o feto se desenvolver pelos estímulos da mãe, “que lhe dá uma ideia prévia do ambiente lá de fora para, quando nascer, estar preparado para essa vida. A isso chamamos programação fetal”, define Possignolo, o que criaria no feto condições metabólicas, funcionais e morfológicas diferentes dos filhotes cujas mães tiveram uma dieta saudável.

O biólogo avaliou, entre 2010 e 2012, o efeito da dieta hiperlipídica materna durante a gestação. A sua pergunta de pesquisa era se essa dieta poderia gerar disfunções no transporte do colesterol da prole em diferentes idades.

Nos experimentos, as mães receberam essa dieta crônica contendo 60% de calorias provindas de lipídios (sobretudo gordura saturada) a partir da terceira até a oitava semana de vida. Depois acasalaram e continuaram a ingestão no período gestacional e na lactação. É como se tivessem uma alimentação desequilibrada da adolescência ao desmame dos filhotes.

Elas foram divididas em dois grupos: um grupo controle, que recebeu uma dieta saudável, e o grupo de estudo, submetido a uma dieta hiperlipídica. O pesquisador fez uma avaliação em vários períodos de desenvolvimento da prole: antes do nascimento (com 17 dias gestacionais) e depois do nascimento com 12 dias, 8 e 16 semanas de vida.

O objetivo de Luiz era desvendar os receptores SR-BI e ABCA1, relacionados com o transporte de colesterol em vários órgãos, como placenta, intestino delgado, fígado e rins. No estudo, essas proteínas, encarregadas da captação de colesterol, estavam aumentadas nos rins, o órgão que exibiu os resultados mais expressivos.

Enquanto a função da SR-BI é a de captar o colesterol para dentro das células renais, a ABCA1 exporta-o para fora. Essa alteração sugere então que as células renais possivelmente captam mais colesterol nos animais programados.

Luiz estima que isso se deveu a um aumento da ABCA1 para não permitir o acúmulo de colesterol, já que a mãe consumia uma dieta rica em lipídios, como resultado da programação fetal. Deste modo, esses animais já estavam “programados” a ter uma maior expressão dessa proteína.

Embora esses animais não se diferenciassem em termos de níveis plasmáticos de colesterol, os triglicérides aumentaram quando estavam com 16 semanas de vida [um rato é considerado adulto a partir da 10ª semana], havendo maior resistência à insulina.

Além disso, outro achado interessante revelado no estudo foi que tanto os filhotes de mães que receberam a dieta saudável quanto a dieta hiperlipídica apresentaram uma queda na expressão dos receptores ABCA1 (responsável pela produção da HDL – colesterol bom) e SR-BI (que capta o excesso de colesterol do sangue) no fígado.

“Descobrimos essa diminuição à medida que os animais envelheciam. Pode ser que a idade seja um fator relevante para esses receptores, que terão menor expressão, podendo contribuir para um acúmulo de colesterol nos tecidos periféricos com o passar da idade”, enfatiza Luiz.

Esses experimentos foram conduzidos no Laboratório de Metabolismo Hidrossalino, que investiga o efeito das dietas materna sobre a programação fetal, principalmente associado às doenças metabólicas e renais.

Programação fetal

A biomédica Flávia Mesquita, do mesmo laboratório de Luiz, conta que a programação fetal é um termo muito difundido para evidenciar alterações nos fetos em consequência do ambiente intrauterino inapropriado. Mundialmente, este tema é debatido em congressos da Sociedade Internacional DOHaD (Origens Desenvolvimentistas da Saúde e da Doença). Flávia salienta que essa programação não é exclusiva, como consequência de uma dieta inadequada, mas também pode ser por estresse materno, depressão e exposição à poluição.

Animais nascidos de uma mãe que recebeu dieta hipoproteica, por exemplo, possuem baixo peso ao nascimento, no entanto rapidamente seu peso se iguala ao de outros animais cuja mãe recebeu uma dieta equilibrada, por tender a estocar tudo aquilo de que foi privado, diz ela.

A hipótese da programação fetal partiu de uma análise epidemiológica do cardiologista inglês David Barker, ao verificar que os filhos de mulheres que vivenciaram a Segunda Guerra mundial eram mais frequentes no seu consultório.

Por esse motivo, o médico fez uma coorte para saber a relação da doença cardiovascular com a vivência da mãe na gestação. Realizou algumas associações com as vítimas da guerra, que passaram fome e ficaram desnutridas, gerando filhos com tendência a alterações cardiovasculares. Algumas mulheres já estavam grávidas e outras passaram por privação no pós-guerra. Esse estudo abriu um leque para outras investigações.

O mestrando Daniel Bueno Block, relata Adrianne, vem trabalhando com tabagismo. Ele coloca a rata prenha em uma câmara, em contato com a fumaça do cigarro, para avaliar os efeitos sobre a prole. A ideia é investigar a pressão arterial, a função renal e dados morfológicos, mormente pelo fato do cigarro causar hipóxia nos fetos.

Outro estudo do laboratório aponta que os efeitos para as doenças cardiovascular e renal são mais perceptíveis no adulto. A alteração na organogênese é a causa dessas doenças tardias, posto que os rins têm uma menor funcionalidade. “Esse órgão tem um desenvolvimento embrionário complexo e requer uma regulação fina. E, provavelmente, o ambiente intrauterino pode afetá-lo em particular”, expõe a coorientadora. O próximo passo envolverá ‘escanear’ os rins, analisando a fisiologia, bioquímica e morfologia, para ver alterações mais específicas.

Um outro estudo ainda dessa linha de pesquisa é o da bióloga Noemi Angélica Vieira Roza, que avaliou a via do fator nuclear kappa B (NF-kB) – um complexo proteico que desempenha funções como fator de transcrição (ligando e desligando interruptores gênicos). Algumas proteínas dessa via, quando ativadas, vão para o núcleo e regulam uma série de genes associados à via inflamatória.

Além desses estudos sobre a ocorrência e o aumento (ou não) dessas proteínas da via da inflamação, Noemi também investigou se os animais estavam retendo mais sódio e água (que pode contribuir para a elevação da pressão arterial). A pesquisa comprovou elevação da glicemia e concluiu que a dieta hiperlipídica colabora para a elevação da pressão arterial dos ratos na vida adulta e para o aumento da inflamação dos rins (pelo menos da via do NF-kB).

Linha de pesquisa

Adrianne comenta que os experimentos nesse laboratório baseiam-se no estudo de dietas alteradas e na observação do que acontece com a prole quando as dietas são aplicadas na mãe. Contudo, qual é o início do processo nos animais, quando as mães são submetidas a tal dieta?

Tanto este estudo quanto o realizado com dieta hipoproteica mostraram que as dietas levam a alterações renais decorrentes de um processo inflamatório e com efeito sobre a pressão arterial.

Essa linha de pesquisa traz reflexões que procuram extrapolar o conhecimento também para o ser humano e prevenir alterações. Ainda que isso não seja possível, pelo fato do grupo atuar só com animais e ter controle total sobre sua alimentação, alguns trabalhos já estudam mulheres obesas com alteração de dieta, com doenças metabólicas, e seus efeitos nos filhos.

“O tema é apropriado, pois a população mundial vem registrando um aumento de doenças metabólicas e de obesidade, o que vem preocupando muito, pela mudança de comportamento alimentar e desequilíbrio metabólico grave”, avisa Adrianne. Até a década de 1980, a preocupação era com a desnutrição. Agora, mais que a obesidade ou a desnutrição, o que gera a programação fetal é o desequilíbrio da nutrição.

Para os seres humanos, o ideal é uma dieta equilibrada, em especial durante a gestação, valendo a célebre frase: “você é o que você come, mais o que a sua mãe comeu”, cunhada pelo pesquisador australiano James Armitage, que há pouco visitou o Núcleo de Medicina e Cirurgia Experimental da Unicamp, onde se localiza o Laboratório de Metabolismo Hidrossalino.

Texto: Isabel Gardenal
Fonte: Jornal da Unicamp

Deixe um Comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *