Disfunção do ciclo menstrual

Durante as últimas décadas, o número de mulheres de faixas etárias diferentes que praticam esportes tanto para recreação como para competição vem aumentando. A maioria das garotas e mulheres obtém benefícios significativos para a saúde através de atividades físicas regulares. Assim como os homens, elas podem alcançar os mesmos efeitos durante os treinos tais como diminuição da pressão sanguínea, redução da taxa do batimento cardíaco, aprimoramento da capacidade aeróbica bem como redução percentual da taxa de gordura corporal.

Tais mudanças ajudam na prevenção de arterosclerose e doenças do coração. Além disso, exercícios de alto impacto fortalecem os ossos, deixando-os mais saudáveis. Mitos relacionados aos efeitos prejudiciais no sistema reprodutor feminino, provindos de exercícios excessivos têm sido amplamente descartados. No entanto, atletas, pais, treinadores e médicos devem se conscientizar de que mulheres que praticam exercícios podem estar propensas à disfunção do ciclo menstrual.

O início dos ciclos menstruais (menarca) ocorre geralmente aos 12 anos e 7 meses de idade, com o desenvolvimento de seios e pêlos pubianos (características sexuais secundárias), que normalmente se manifestam com dois anos de antecedência. Ciclos menstruais normais acontecem de 21 e 35 dias, tendo a média de 28. Em geral, o fluxo menstrual dura aproximadamente cinco dias. O primeiro dia de sangramento marca o início da fase folicular. Ao longo do começo desta fase, os níveis dos hormônios femininos estrogênio e progesterona no sangue estão baixos.

No fim da fase folicular, a secreção do estrogênio atinge seu grau máximo antes da ovulação. A ovulação normalmente ocorre por volta da metade do ciclo (entre o 13º e 15º dia), embora o estresse e uma série de outros fatores possam causar atraso ou ausência desta. A fase luteal dura desde a ovulação até o início da próxima menstruação, geralmente por volta de 14 dias. Esta fase também pode ser afetada por fatores externos. Os níveis de estrogênio permanecem altos-embora não tão altos como são imediatamente antes da ovulação – e os de progesterona também aumentam.

Esses hormônios do aparelho reprodutivo podem causar alguns sintomas fisiológicos e psicológicos descritos a seguir. Se a fecundação de um óvulo fertilizado não acontecer, a queda dos níveis de hormônio levará a uma sangramento da parede interna do útero (endométrio) e sairá na forma de fluxo menstrual, e um novo ciclo se inicia. Ciclos menstruais ovulatórios são regulares apenas se o sistema de feedback que abrange o hipotálamo, a glândula pituitária anterior (hipófise) e os ovários, estiver funcionando corretamente. Além disso, o útero e os demais órgãos do aparelho reprodutor devem estar intactos.

A amenorréia primária é diagnosticada quando a mulher não começa a menstruar por volta de 16 anos, ou ainda quando não começa desenvolver seios e pêlos pubianos aos 14. Em algumas mulheres é possível haver um atraso constitucional da menarca, sobretudo se as suas genitoras apresentaram demora no desenvolvimento. A amenorréia secundária é a ausência de três ou mais ciclos menstruais consecutivos após a menarca. A oligomenorréia é caracterizada por três a seis ciclos menstruais ao ano, ou ciclos com intervalos maiores do que 35 dias.

Mulheres atletas podem apresentar redução da fase luteal (menos de dez dias de duração), ou ciclos anovulatórios. Essas variações podem ser difíceis de se identificar, visto que ainda podem parecer sangramentos menstruais regulares. O único sinal externo pode ser a dificuldade de engravidar. Alguns sintomas sugerem ovulação, incluindo dores nas mamas, retenção de líquidos, mudanças de apetite e humor ao longo da segunda metade do ciclo.

De maneira moderada, eles indicam que o eixo neuroendócrino está funcionando de forma correta. Já em excesso, podem se tornar um incômodo tal qual a Tensão Pré-Menstrual (TPM). Cólicas menstruais dolorosas e fluxo intenso são denominados dismenorréia. Cientistas acreditam que exercícios físicos regulares podem ser benéficos para a diminuição da gravidade dessas duas últimas condições. A Amenorréia ocorre em 2 a 5% da população geral, o equivalente a uma entre 44 mulheres que se exercitam.

Outras disfunções de ciclos menstruais também são comuns em atletas. A amenorréia atlética ou exercício associado à amenorréia é um diagnóstico de exclusão, ou seja, que outras causas médicas como gravidez, tireóide e disfunções endócrinas, excesso de hormônios masculinos (andrógenos), tumor pituitário (prolactinoma), síndrome do ovário policístico e anomalias genéticas devam ser descartadas. Com base no histórico familiar e no exame físico, o médico pode pedir exames de sangue específicos e realizar outras pesquisas.

Não há uma causa única para a aparecimento da amenorréia atlética. Outros fatores em potencial são: redução da massa e da gordura corporal, perda de peso rápida, início repentino de exercícios pesados, privação nutricional, alimentação não balanceada e desequilíbrio de energia, estresses físico e psicológico. A supressão do ciclo reprodutivo varia em cada mulher. Esportes que evidenciam a magreza (como endurance sports ou esportes estéticos) são mais prováveis de apresentarem uma porcentagem alta de atletas com disfunções menstruais.

A incidência de amenorréia em corredoras (24 a 26%), por exemplo, tem sido maior do que em nadadoras (12%). A pré-disposição genética também pode ser relevante. Antigamente, pensava-se que a prática de esportes competitivos precocemente adiaria a menarca. No entanto, é mais provável que mulheres que alcançam a maturidade tardiamente desenvolvam habilidades específicas para certos esportes e disciplinas.

Exercícios de alta intensidade e aumento na freqüência de treinos são associados a uma incidência maior de disfunções menstruais, porém, não há evidências científicas para uma relação de causa e efeito direta. Alterações metabólicas e mudança na composição corporal como perda de peso e diminuição da porcentagem de gordura no corpo são mais coincidentes do que causativas. Um bom equilíbrio de energia (consumo de calorias suficientes para a quantidade de exercícios realizados) parece ser decisivo para a manutenção dos ciclos ovulatórios.

A deficiência nutricional pode também acarretar déficit de cálcio, ferro ou de outros nutrientes importantes. Mulheres com amenorréia devem consumir o equivalente a 1500 mg de cálcio natural diariamente para manter sua densidade óssea. Fatores de ordem psicológica e emocional bem como o estresse também desempenham um papel importante no desenvolvimento de disfunções nos ciclos menstruais.

Em alguns esportes, a tendência de técnicos, pais e juízes de focarem a composição do corpo e sua porcentagem de gordura gera uma preocupação prejudicial com a estética corporal. Por que você deveria se preocupar com ausência de alguns ciclos menstruais? Amenorréia, outrora considerada um resultado de treino “normal” e “desejável” entre as atletas, desde 1984 tem sido relacionada à perda prematura de densidade óssea. É um sintoma de um problema subjacente que requer avaliação médica dentro dos primeiros três meses de ocorrência.

Em algumas mulheres, o maior problema é a infertilidade, mas o risco mais invisível de uma amenorréia prolongada é a perda da densidade óssea ou osteoporose precoce. Por que razão isso acontece? Amenorréia e outras formas de disfunção menstrual são associadas a um estado de deficiência de estrogênio semelhante ao da menopausa. O estrogênio, e possivelmente a progesterona ampliam a absorção de cálcio, sua absorção e acúmulo no osso. A perda de estrogênio pode também aumentar teoricamente os níveis de lipídeos no sangue e levar a uma aterosclerose precoce e a doenças cardiovasculares.

É possível que haja ainda uma incidência maior de câncer nos órgãos do aparelho reprodutor. A falta de efeitos protetores de estrogênio nos ossos causa desmineralização ou osteoporose precoce, aumentado o risco de escoliose, fraturas devido ao estresse ou outras fraturas mais sérias. Mesmo com a retomada das menstruações normais, algumas dessas mudanças podem ser irreversíveis. A adolescência, em particular, ocorre quando os ossos do esqueleto estão formados e consolidados entre 60 a 80%. O Hipoestrogenismo e má nutrição ao longo desses anos podem levar de à quantidade mínima de massa óssea.O tratamento contra amenorréia varia de acordo com o motivo.

A atleta deve procurar um médico que lhe conceda os primeiros cuidados ou um profissional de medicina do esporte para excluir as causas médicas da amenorréia. Tendo feito o diagnóstico da amenorréia atlética, o médico pode aplicar um tratamento de cinco dias com progesterona sintética denominado Provera (com 10mg/dia). Qualquer sangramento de remoção pode ser considerado uma evidência de que o eixo pituitário esteja intacto. Soluções para o tratamento podem então incluir uma redução modesta de exercícios físicos (de 5 a 10%), um leve aumento de peso (de 5% ou de acordo com o indicado), e uma atenção especial à nutrição, estresse, sono e treinamentos.

Atletas com amenorréia que devem suspender seus treinos para evitar complicações, geralmente terão seus ciclos regularizados novamente em dois meses. A ovulação e o controle da amenorréia são imprevisíveis, mas podem ocorrer antes do início das menstruações. Portanto, métodos de controle da natalidade se fazem necessários. Se os ciclos não iniciarem espontaneamente em mulheres acima de 16 anos, pode tornar-se necessária a reposição hormonal de estrogênio e progesterona. Para uma mulher jovem que possui uma vida sexual ativa, anticoncepcionais orais são alternativas seguras e práticas.

Por meio de fórmulas mais recentes com doses reduzidas, não há impactos significativos na performance atlética. Mulheres com amenorréia secundária que desejem engravidar e que não respondam a intervenção dietética, redução da freqüência de treinos ou de estresse, podem precisar de certos medicamentos para estimular a ovulação. De modo geral, os inúmeros benefícios associados a exercícios físicos regulares não oferecem riscos.

Uma conscientização prévia dos problemas e uma conduta apropriada são essenciais. Para maiores informações sobre disfunções de ciclo menstruais, bem como outras edições médicas envolvendo garotas e mulheres ativas, contate ACSM A/C Triad, POB # 1440, Indianápolis IN 46206.

Texto:
AMERICAN COLLEGE OF SPORT MEDICINE – CURRENT COMMENT OCTOBER – 2000

Tradução:
Tarcilla Sodré Burginga Menezes
Aluna do curso de Tradução e Interpretação da UNISANTOS – Universidade Católica de Santos.

Cortesia:
Cooperativa do Fitness

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