Estudante investiga uso de suplementos em academias

O estudante Pablo Christiano Lollo, da Faculdade de Educação Física (FEF), passou um ano e meio pesquisando o consumo de suplementos alimentares por freqüentadores de academias de ginásticas de Campinas. O objetivo de seus estudos foi identificar e compor o perfil desses indivíduos que, segundo observações do pesquisador, na maioria das vezes consomem produtos de eficácia duvidosa.

Jovens são os maiores usuários

Pablo apresentou os resultados de seu trabalho no Congresso Internacional de Educação Física, realizado em Foz de Iguaçu no início do ano. Para o estudante, a grande quantidade de produtos existentes no mercado promete uma suplementação alimentar com o principal propósito de aprimorar o desempenho nas atividades esportivas e melhorar a qualidade de vida do cidadão. Mas nem sempre isso é verdadeiro.

“O uso de alguns suplementos dietéticos pode até influenciar no desempenho esportivo. No entanto, não são totalmente conhecidos os efeitos colaterais de algumas dessas substâncias, sendo recomendadas pesquisas mais acuradas”, alerta o estudante. O que se pode verificar, segundo a pesquisa de Pablo, é que há completa desinformação, tanto de quem administra o produto, quanto de quem o consome. O problema chega também às universidades e, às vezes, nem mesmo professores e médicos têm condições satisfatórias de indicar o produto mais adequado e eficaz para o usuário.

No caso da Unicamp, a própria FEF tem uma disciplina de nutrição que, “se não elimina por completo eventuais equívocos, pelo menos os minimiza”, conforme explica. A pessoa mais indicada para isso é o nutricionista, profissional habilitado sobre o uso científico da dieta do indivíduo, seja ele atleta ou não.

As investigações de Pablo foram realizadas com freqüentadores de 29 academias de ginástica de Campinas, determinadas por sorteio com base em relação fornecida pelo Conselho Regional de Educação Física de Campinas (CREF). Orientado pela professora Maria da Consolação Gomes Tavares, da FEF, o pesquisador concluiu que 292 atletas, dos 621 voluntários da pesquisa, declararam ter ingerido suplementos dietéticos no ano que precedeu o levantamento, cujos maiores consumidores são os homens, com 68,1%, contra 31,8% das mulheres. E mais: a faixa etária de consumo mais freqüente foi de 23 a 28 anos.

Consciência – Pablo verificou que 74,3% dos consumidores eram solteiros, e que 65,1% haviam concluído ou ainda cursavam o nível superior. Esse nível de escolaridade, todavia, não foi suficiente para que consumidores procurassem informações mais confiáveis sobre os suplementos, uma vez que apenas 26,7% deles tinham médicos e nutricionistas como fontes de informações. “É preciso que se ressalte que esse índice (26,7%), considerado baixo, é provocado pela facilidade de se encontrar o produto no mercado”, acredita o pesquisador.

Mas a grande maioria, ou seja, 94,2% desses consumidores, declarou ser praticante assíduo de musculação. O estudante observou ainda que 7,5% dos consumidores declararam ter usado esteróides anabolizantes, número que pode ser considerado demasiadamente alto. No entanto, a pesquisa aponta que a grande maioria, quer dizer, 90,4% dos consumidores, utilizou os suplementos dietéticos sem qualquer consulta prévia ao médico ou nutricionista.

“Acreditamos que a falta de consulta a um médico ou nutricionista poderá contribuir na expectativa de resultados incoerentes desses suplementos. Ocorre que muitos consumidores esperavam obter resultados no mínimo satisfatórios dos suplementos consumidos, que nem a literatura científica e até mesmo a propaganda a respeito diz ser possível”, explica. Por exemplo: consumir vitamina C para ganhar massa muscular. “Nunca vi nenhuma pesquisa a respeito e até mesmo propaganda afirmando isso”, diz o pesquisador.

No entanto, Pablo revela ainda que mais de 90% dos consumidores investigados declararam ter observado melhora considerável no que se refere à performance depois que passaram a ingerir suplementos dietéticos. “Agora, como saber se tais resultados são ou não verdadeiros, isso é algo difícil de se concluir”. Curiosamente, há academias em Campinas que possuem estantes de produtores alimentares, “como meio de chamar a atenção dos freqüentadores, de forma a estimulá-los a comprar o produto, o que nos leva a acreditar, com isso, que o número de consumidores aumenta de modo considerável. É possível que também proprietários e professores de academias de ginástica acabem indicando suplementos, uma vez que, conforme pude constatar, 18,5% dos voluntários responderam ter conhecimentos dos suplementos dietéticos por meio dos professores”, avalia Pablo.

Texto: Antônio Roberto Fava
Contato: fava@unicamp.br

Fonte: Jornal da Unicamp
Edição 250 – de 3 a 9 de maio de 2004

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