Estudo inglês põe em xeque o valor do aquecimento

Técnicas de resfriamento do corpo de atletas melhoram frequência cardíaca e as temperaturas da pele e timpânica

A seqüência é extremamente tradicional em qualquer esporte, independentemente do grau de exigência ou profissionalismo, e recomendada por todo profissional: antes de praticar uma atividade física, as pessoas devem fazer um aquecimento para preparar seu corpo. Contudo, um estudo publicado pelo British Journal of Sports Medicine pode revolucionar essa preparação.

O estudo comparou os efeitos de três diferentes preparações termorregulatórias em um grupo de 20 homens, que foram submetidos a corridas de exaustão. Na seqüência inicial, eles fizeram um aquecimento de 20 minutos com 70% da freqüência cardíaca máxima. Depois, mudaram a preparação e vestiram uma roupa com temperatura de 0ºC e -5ºC. A terceira fase foi feita sem nenhuma preparação antes do esforço físico.

O mais surpreendente desse estudo é que o grupo que resfriou o corpo em vez de aquecer apresentou melhor freqüência cardíaca e temperaturas da pele e timpânica consistentemente menores em relação à primeira seqüência do teste, com o esforço de 20 minutos a 70% da freqüência cardíaca máxima.

Os resultados desse teste, porém, contrariam o pensamento da maioria dos profissionais da área. No Brasil, o aquecimento ainda é apontado como uma técnica fundamental de preparação antes de qualquer atividade física. “Trata-se de um procedimento que é desempenhado com os atletas para melhorar seu rendimento e sua preparação para o esforço que se segue. É fundamental antes de qualquer esporte”, avaliou Renato Lotufo, fisiologista do Corinthians.

Para o fisiologista do Santos, Cláudio Pavanelli, os resultados do teste publicado na Inglaterra podem estar atrelados a um erro de procedimento: “Essa prática é fundamental para a preparação, mas muitas vezes é feita de maneira errada. Já peguei atletas de várias modalidades – não do futebol – que tinham um esforço melhor no aquecimento do que durante a atividade. Faltava um planejamento adequado”.

O aquecimento deve considerar três fatores fundamentais para ser realmente eficiente: a duração, a intensidade e os grupos musculares que devem ser trabalhados. De acordo com essas informações, os profissionais precisam planejar atividades que exercitem o atleta e sirvam para aumentar a temperatura dos locais desejados.

O aumento de temperatura dilata os vasos sangüíneos e aumenta o fluxo de sangue. Isso faz com que os músculos trabalhados tenham maior aporte de oxigênio e nutrientes. Essa dilatação também amplia a quantidade de líquido sinovial enviado às articulações e reduz a probabilidade de lesões.

Há ainda outros benefícios complementares do aquecimento, como o aumento da velocidade de transmissão do impulso nervoso, a diminuição do tempo de relaxamento muscular após uma contração, o aumento da velocidade e da força da contração muscular e a melhoria da coordenação.

“O aquecimento é uma preparação importante, mas precisa ter critérios. Ele pode ser uma forma de o atleta entrar mais pronto para a atividade, mas também pode acabar prejudicando. Tudo depende do quanto e do como isso é feito”, ponderou Pavanelli.

Outro ponto levantado pelos profissionais brasileiros para discutir o resultado desse estudo é que as temperaturas musculares abaixo da temperatura do corpo tendem a aumentar a viscosidade muscular. Com isso, o atleta tem uma sensação de inércia, rigidez e fraqueza nos músculos.

“Nos dias em que a temperatura ambiente é mais elevada, por exemplo, os atletas têm uma exigência menor quanto ao aquecimento. O contrário acontece no frio. Além da proteção, eles precisam fazer um trabalho totalmente planejado para que os músculos tenham uma elevação de temperatura”, contou Lotufo.

Texto: Guilherme Costa

Fonte: Universidade do Futebol

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