Exercício físico e hipertensão arterial: relato de caso

Paciente I.A., sexo feminino, 56 anos, branca, casada, natural de Campinas, SP, na pós-menopausa, com hipertensão arterial detectada há 6 meses, assintomática, sem uso de medicação, encaminhada para programa de atividade física supervisionada.

Antecedentes pessoais:

  • nega
    – tabagismo,
    – etilismo,
    – diabete,
    – dislipidemias,
    – história prévia de hipertensão arterial,
    – doenças cardiovasculares ou outras doenças crônicas,
    – uso de medicamentos. 
  • Refere sedentarismo.

Antecedentes familiares:

  • pai hipertenso,
  • tio falecido de infarto agudo do miocárdio.

Exame físico:

  • PA = 165 x 100 mmHg,
  • FC = 92,
  • Peso = 60 kg.
  • Não foram encontradas outras anormalidades ao exame físico, exceto exame de fundo de olho, que apresentava aumento do reflexo arteriolar.Exames laboratoriais:
  • sem alterações,
  • ECG normal,
  • teste ergométrico negativo.

Evolução:

  • A paciente foi admitida em programa de condicionamento físico de prevenção primária com treinamento, três vezes por semana, com exercícios isotônicos, com 60% – 70% da freqüência cardíaca máxima, durante período de seis meses, após o qual repetiu o teste ergométrico para comparação evolutiva de parâmetros hemodinâmicos. Durante esse período, não apresentou efeitos adversos relacionados ao programa.

    Discussão

    Estudos epidemiológicos têm demonstrado que a relação entre exercício físico e pressão arterial é difícil de ser avaliada, em virtude das diferenças quanto a dieta e estilo de vida. Estudos mais recentes mostram que um programa de treinamento físico está associado com reduções clinicamente expressivas da pressão arterial em pacientes hipertensos. A prática de exercícios aeróbios moderados, com duração de 30 – 45 minutos, como caminhar ou nadar três vezes por semana, poderá produzir uma redução moderada na pressão arterial.

    Esses resultados geralmente são obtidos a partir dos três primeiros meses de treinamento físico. Pacientes hipertensos deverão ser abordados através da aplicação criteriosa do exercício físico para que o mesmo possa ser efetivamente benéfico1. Embora haja uma redução de aproximadamente 30 % na capacidade de tolerância ao exercício em indivíduos hipertensos em relação aos normotensos, a pressão arterial poderá diminuir em média entre 5-7 mmHg com o exercício aeróbio regular.O nível de exercício deverá ser suficiente para promover um efeito de condicionamento, geralmente obtido com 60% – 70% da freqüência cardíaca máxima2-4.

    O exercício físico reduz a pressão arterial através de múltiplos mecanismos5, como a redução da atividade simpática, através da potencialização do reflexo baroceptor,6 elevação dos níveis circulantes de prostaglandinas, diminuição dos níveis de renina plasmática7, redução da viscosidade plasmática, redução do enrijecimento arterial8, aumento na liberação do óxido nítrico9 e aumento da sensibilidade à insulina10.

    Vários autores têm proposto que a atividade física regular pode também reduzir a pressão arterial de repouso em mulheres pós-menopáusicas. No entanto, o nível de resposta pode variar de forma significativa entre um indivíduo e outro11-13. Seals et al.11 demonstraram a eficácia dos exercícios aeróbios em mulheres hipertensas no pós-menopausa, promovendo redução significativa de níveis pressóricos sistólicos e diastólicos a partir de 12 semanas de treinamento.

    Puderam também observar que, quanto maiores os níveis pressóricos sistólicos antes do programa, maiores foram as reduções após a aplicação do programa. Os benefícios da atividade física regular em hipertensos são de estabelecida importância para os profissionais de saúde. Embora os efeitos da atividade física regular sobre a redução da pressão arterial em hipertensos não seja tão intenso quanto o tratamento medicamentoso, é sobejamente conhecido o impacto da redução dos níveis pressóricos, mesmo de pequena magnitude, sobre a ocorrência de eventos cardiovasculares na população de maneira geral.

    A figura 1 resume estudos sobre o efeito hipotensor do exercício físico em indivíduos normotensos e hipertensos14. Como se pode observar, os benefícios da atividade física também têm sido relatados em mulheres após a menopausa. Em conclusão, existem evidências clínicas e experimentais demonstrando os efeitos da atividade física regular sobre a redução da pressão arterial.

    O Consenso Brasileiro de Hipertensão de 1998 recomenda a prática de exercícios regulares no tratamento não-farmacológico da hipertensão arterial não complicada nível I15.


    Referências bibliográficas

    1. BEEVERS G, LIP GYH, O’BRIEN E. In: ABC of hypertension. 4th ed., 2001.

    2. KAPLAN NM. Clinical hypertension. 7 ed. Baltimore: Williams & Wilkins, 1998.

    3. LIM PO, MACFAYDEN RJ, CLARKSON PBM, MACDONALD TM. Impaired exercise tolerance in hypertensive patients. Ann Intern Med, v. 124, p. 41–55, 1996.

    4. PAPADEMETRIOU V, KOKKINOS PF. The role of exercise in the control of hypertension and cardiovascular risk. Curr Opin Nephrol Hypertens, v. 5, p. 459–462, 1996.

    5. ARAKAWA K. Antihypertensive mechanism of exercise. J Hypertens, v. 11, p. 223–229, 1993.

    6. GRASSI G, SARAVALLE G, CALHOUN DA, MANCIA G. Physical training and baroceptor control of sympathetic nerve activity in humans. Hypertension, v. 23, p. 294–301, 1994.

    7. KIYONAGA A, ARAKAWA K, TANAKA H, SHINDO M. Blood pressure and hormonal responses to aerobic exercise. Hypertension, v. 7, n. 1, 1985.

    8. VAITKEVICIUS PV, FLEG JL, ENGEL JH. Effects of age and aerobic capacity on arterial stiffness in healthy adults. Circulation, v. 88, p. 1456–1462, 1993.

    9. KINGWELL BA, TRAN B, CAMERON JD. Enhanced vasodilatation to acetylcholine in athletes is associated with lower plasma cholesterol. Am J Physiol, v. 39, p. H2008–H2013, 1996.

    10. ARAÚJO-VILAR D, OSIFO E, KIRK M. Influence of moderate physical exercise on insulin mediated and non-insulin mediated glucose uptake in healthy subjects. Metabolism, v. 46, p. 203–209, 1997.

    11. SEALS DR, SILVERMAN HG, REILING MJ, DEIVY KP. Effect of regular aerobic exercise on elevated blood pressure in postmenopausal women. Am J Cardiol, v. 80, July 1, 1997.

    12. ARROL B, BEAGLEHOLE R. Does physycal activity lower blood pressure: a critical review of the clinical trials. J Clin Epidemiol, v. 45, p. 439–447, 1992.

    13. KELLY G, MCCLELLAN P. Antihypertensive effects of aerobic exercise: a brief meta-analytic review of randomized controlled trials. Am J Hypertens, v. 7, p. 115-119, 1994.

    14. FAGARD RH: The role of exercise in blood pressure control: supportive evidence. J Hypertens, v. 13, n. 11, p. 1223–1227, 1995.

    15. CONSENSO BRASILEIRO DE HIPERTENSÃO ARTERIAL, 3., Campos do Jordão, 1998.

 

 

José Francisco Kerr Saraiva

Edmo Atique Gabriel

Serviço de Cardiologia – Hospital Universitário. Pontifícia Universidade Católica de Campinas – PUCCAMP

Endereço para correspondência:
Rua Dr. José Vicente, 130
13094-361 – Campinas – SP
Telefax: (19) 3251-5311
E-mail: jfsaraiva@uol.com.br

Fonte:
Revista Hipertensão. Número 03. Volume 04. Ano 2001
Sociedade Brasileira de Hipertensão

 

 

 

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