Fase de polimento para atletas de resistência

Os atletas de fundo muitas vezes se concentram em otimizar o desempenho em apenas um ou dois grandes eventos esportivos durante toda uma temporada. Geralmente afunilam ou reduzem drasticamente o volume de seus treinamentos antes das competições mais importantes. Este caracteriza o que chamamos de polimento.

O polimento é definido como uma fase de redução em curto prazo na carga de treinamento durante um período que antecede a um evento competitivo. Esta estratégia se tornou muito popular e é comum a incorporação de um período de redução gradual do treinamento durante vários dias antes de uma competição importante.

BOMPA (2002) define este período como um período reservado para o treinamento específico antes de uma competição importante com intuito de remover a fadiga e facilitar a ocorrência da supercompensação através de um decréscimo das cargas de treinamento.

Uma ideia equivocada, porém comum sobre a fase de polimento, é que a redução da intensidade do treino ou do volume imediatamente antes de uma competição pode diminuir o desempenho do exercício através do destreinamento.

Muitos atletas de resistência, dentre eles corredores de longa distância e ciclistas não realizam o procedimento correto antes das competições. Estes atletas temem que uma ou duas semanas de redução da sua programação de treinamento irá resultar em uma perda drástica da sua forma física e consequentemente terão um desempenho inferior ao que poderiam obter se tivessem treinado pesado até a competição. Mas evidências publicadas indicam que a maioria dos indivíduos bem treinados pode apresentar uma melhoria de desempenho de até 3% após um período de polimento.

Treinadores e atletas que fazem um polimento correto após um período de alta intensidade e /ou de alto volume de treinamento pode se beneficiar através de melhoria de desempenho na força e da resistência.

A não aplicação do período de descanso e polimento pode causar overtraining. E a aplicação deste período de forma incorreta, pode acarretar efeitos do destreinamento. Após a redução da carga de trabalho, atletas podem começar a mostrar os sintomas de destreinamento dentro de 14 a 21 dias.

Por outro lado, Morton (1997) afirma que altos volumes de treinamentos realizados entre 12 a 14 dias de uma competição irá prejudicar o desempenho do atleta.  Imagine dizer a um atleta para não treinar antes de uma competição importante. O treinador deve ser bastante corajoso e seus atletas bastante fiéis para colocar tal procedimento em prática.

Para muitos atletas, um ano de treinamento se resume a um único importante evento competitivo. A preparação final para a competição é uma arte e uma ciência, que requer uma compreensão das alterações fisiológicas que estão ocorrendo e as habilidades para gerenciar o estado psicológico e emocional de um atleta.

Neste período, o foco deve estar voltado para o principio da especificidade. Este princípio compreende o treinamento das capacidades (exigências) específicas da modalidade, como via metabólica predominantemente utilizada, grupos e ações musculares que participam do gesto esportivo e tipo de força.

Além desta estratégia, muitos atletas podem optar por um descanso após uma temporada competitiva para promover a recuperação das tensões psicológicas e fisiológicas associadas com a temporada competição e de treinamentos intensos.

Clark (1997) e Liebman e Wilkinson (1996), citados por Ribeiro, Ferreira e Soares (2001) sugerem uma redução do volume e da intensidade do treinamento durante 6 a 15 dias anteriores à competição e, paralelamente, um aumento progressivo no consumo de carboidratos para um valor de 70% ou mais do valor energético total da dieta durante as últimas 72 horas. Este aumento no consumo de carboidratos objetiva causar uma supercompensação de carboidratos aumentando os estoques de glicogênio muscular e desta forma prolongando significativamente o tempo de exercício até a exaustão.

Segundo Hawley (1998), primeiramente reduz-se o volume de treinamento de modo gradativo durante 10 a14 dias, faltando 2 a 3 dias para a competição, o volume de treinamento chegará a quase zero. Alguns procedimentos que duraram 6 semanas apenas mantiveram ou até mesmo pioraram os rendimentos dos atletas ao invés de melhorá-los.

Em segundo lugar, a intensidade do treinamento deve ser mantida, ou mesmo ligeiramente aumentada. O treinamento intenso é necessário para preservar algumas das adaptações associadas ao treinamento que podem ser perdidos com a redução acentuada no volume de treinamento.

Um estudo realizado com atletas corredores de meio confirma tal afirmação.

Shepley (1992) e colaboradores examinaram alguns dos efeitos fisiológicos e de desempenho de três diferentes formas de polimentos em atletas altamente treinados.

Após 8 semanas de treinamento, 9 corredores de meia distância do sexo masculino foram divididos aleatoriamente para um dos três diferentes métodos. Cada um dos métodos durou 7 dias e foram divididos da seguinte forma:  1) alta intensidade e redução do volume, 2) baixa intensidade e volume moderado, e, 3) somente descanso durante o período.

Após este primeiro polimento, os indivíduos voltaram a treinar por 4 semanas e realizaram um segundo polimento, seguido de novo período de treinamento de 4 semanas. Após este novo período de treinamento eles foram submetidos a um novo período de polimento de modo que cada um dos sujeitos foi submetido a 3 polimentos durante todo o período.

O desempenho foi medido antes e depois de cada polimento através de corrida até à exaustão em esteira ergométrica. A velocidade estipulada foi a velocidade que cada um dos sujeitos exercia em seu melhor desempenho na prova de 1500 metros rasos.

Também foram mensuradas a força isométrica voluntária e as propriedades contráteis do quadríceps antes e depois de cada período de polimento, as concentração de glicogênio muscular e atividade da enzima citrato sintase (a partir de biópsias musculares), volume plasmático total e de células vermelhas.

O consumo máximo de oxigênio não foi afetado por nenhum dos 3 procedimentos, mas o tempo de corrida até a fadiga completa aumentou significativamente (cerca de 22%) após o polimento que envolveu alta intensidade e baixo do volume de treinamento. ) O procedimento de baixa intensidade e volume moderado apresentou uma melhoria de apenas 6% e o procedimento que envolveu descanso apresentou piora no rendimento (-3%).

A atividade da enzima citrato sintase e o volume plasmático aumentaram significativamente com a alta intensidade e baixo volume e diminuiram significativamente com o descanso. Concentrações de glicogênio muscular aumentou significativamente após estes dois procedimentos, e o aumento da força foi verificado após os três procedimentos.

Neary et al. (2003) afirma que um polimento pode provocar melhorias fisiológicas e no desempenho durante o exercício. Este período pode aumentar a concentração de glicogênio muscular, força e potência muscular, aumento do volume máximo de oxigênio, resistência e potência muscular.

Este procedimento é hoje amplamente aceito e um polimento corretamente projetado deve fazer parte da preparação de qualquer atleta de resistência antes de uma competição importante.

A maioria dos atletas fica ansiosa para uma redução da carga de treinamentos neste período para romper o rigor dos treinamentos intensos. Do outro lado, muitos treinadores se aproximam deste período com alguma apreensão, uma vez que precisam atingir o equilíbrio certo entre os treinos e as recuperações de seus atletas.

Durante um período de polimento, diversas variáveis ​​podem ser manipuladas em uma tentativa de maximizar o desempenho. Estas incluem o volume, a frequência, a duração e a intensidade das sessões de treino, e da duração de todo o período. Ainda se faz necessários estudos que identifiquem o papel de cada uma destas variáveis, porém, sabe-se que o segredo de um polimento de sucesso está na manipulação correta destas variáveis isoladamente ou através da combinação de todas elas.

Evidências indicam que uma redução entre 60 a70% na carga total de treinamento podem melhorar o desempenho no exercício, sem causar sintomas de destreinamento. A intensidade do treinamento deve ser ligeiramente reduzida para otimizar o polimento, permitindo o descansos e a recuperações adequadas.

Entretanto, a manutenção da intensidade do treinamento em um período de redução gradual parece ser necessária para evitar quaisquer efeitos de destreinamento. Acredita-se que a intensidade deve ser mantida em no mínimo 70% da intensidade máxima para evitar uma redução do volume máximo de oxigênio durante este período. Pesquisas indicam que o melhor tipo de programa de exercícios a ser executado por indivíduos altamente treinados durante um período de polimento é aquele em que o volume é bastante reduzido mas a intensidade de treinamento permanece alta.

Quanto ao tempo adequado para permitir a redução gradual num polimento, pesquisas indicam que um período entre 7 a 10 dias não irá prejudicar o desempenho. No entanto, outros estudos encontraram uma redução média de 4% no volume máximo de oxigênio após duas semanas de inatividade.

Até que mais pesquisas sejam realizadas, o procedimento de polimento continuará a ser uma mistura de arte e ciência.

Referências:

Bompa, T. O. Periodização. Teoria e metodologia do treinamento. 4ª Ed. São Paulo: Phorte, 2002.

Dantas, H.M.E.. A prática da Preparação Física, 5ª ed., Rio de Janeiro, Shape, 2003.

Ferreira, A.M.D.; Ribeiro, B.G.;Soares, E.A.. Consumo de carboidratos e lipídios no desempenho em exercícios de ultra-resistência. Rev Bras Med Esporte vol.7 no.2 Niterói Apr. 2001

Gianoni, R.. Redução progressiva do treinamento de força na fase de polimento. [internet]. Disponível em: https://www.educacaofisica.org/wp/?p=1910 [Acesso em: 09/06/2012]

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Powers, S.K., & Howley, E.T. Fisiologia do Exercício: teoria e aplicação ao condicionamento e ao desempenho. 6ª edição. Barueri: Manole, 2009

Shepley, B., MacDougall, J.D., Cipriano, N., Sutton, J.R., Tarnopolsky, M.A., Coates, G.. Physiological effects of tapering in highly trained athletes. Journal of Applied Physiology. Feb;72(2):706-11., 1992.

Autor: Luciano Carlos Fernandes
Professor de Educação Física – CREF 6 / MG – 4812 G
Especialista em Treinamento Desportivo – UFV
Editor do www.educacaofisica.org

 

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