Inteligência

O que somos? Muitos ao mesmo tempo, muitos em momentos diferentes, o mesmo diferente em cada momento ou o mesmo sempre o mesmo o tempo todo?

O exercício intelectual de descrição da condição humana, que se estende por uma tradição de mais de dois milênios apenas no mundo ocidental, costuma ser apresentado em quadros distintos, que não se confundem, que não se comunicam. Assim, o ser humano emocional é uma entidade independente do ser humano intelectual, que é independente do ser humano social e assim por diante.

É como se, ao entrar em uma aula de filosofia, uma metamorfose súbita materializasse exclusivamente o intelectual. Por outro lado, a mesma pessoa, na prática desportiva, correndo uma prova de cem metros rasos, seria exclusivamente motora. Esse mimetismo camaleônico que parece nos acometer, uma vez que nossos comportamentos são realmente diferentes a cada situação, tem gerado a idéia, talvez falsa, de que somos um de cada vez, em cada momento.

Ou seja, somos muitos em momentos diferentes. Considerando de um outro aspecto, que não aquele que produziu a tradição intelectual do ocidente, é possível que esse ser humano recortado, camaleônico, fragmentado, seja mais íntegro do que imaginamos. Imaginemos, por exemplo, que, de fato, pratiquemos um mimetismo conveniente às condições ambientais vividas. Ou seja, é indispensável que haja um esforço de adaptação a cada ambiente vivido por nós.

De maneira geral, consideraríamos dois ambientes básicos de experiências humanas: o ambiente interno e o ambiente externo. No mundo interior, convivemos, tanto com nós mesmos, quanto com o mundo todo; de maneira geral, é mais possível conviver com amplas extensões do universo no mundo interno que no externo. Esse convívio, no entanto, é realizado simbolicamente, através das representações que fazemos do mundo e de nossas ações. Provavelmente, nas camadas mais profundas do mundo interior, anteriormente aos símbolos, convivemos com a energia ainda não nominada, não configurada.

É o caso das pulsões, dos sentimentos. Numa analogia com uma erupção vulcânica, cuja lava, à medida que se aproxima da superfície toma configurações diferentes, até se cristalizar em matéria estável no mundo exterior, assim também a energia humana, procedendo de camadas profundas, configura-se diferente a cada novo patamar, adquirindo configurações mais estáveis à medida que toma contacto com o mundo exterior. Tanto é que nos parece muito mais difícil descrever pulsões, sentimentos e emoções (nesta ordem), que pensamentos, palavras, ações, relações sociais, conceitos, enfim, as coisas que, nitidamente, estão em contacto com o mundo exterior.

No mundo interior, convivendo com nós mesmos, com o mundo tornado nós (através das representações), a produção realizada seria resultado do esforço de adaptação que todos os vivos são obrigados a realizar em seus ambientes. Sendo assim, as pulsões, os sentimentos, as emoções, a inteligência, seriam resultados de adaptações, seriam produtos de interações. Seriam, no entanto, a mesma energia, a mesma produção humana, cuja existência foi tornada possível no ambiente de manifestação. As pulsões, por exemplo, possivelmente tenham o mínimo contacto com o mundo social, portanto, não precisam se fazer entender socialmente.

Os sentimentos também se formam num ambiente de bastante intimidade, com pouca penetração do mundo social. As emoções são uma das faces visíveis da afetividade, portanto, bastante marcadas pelas interações sociais. Finalmente, a inteligência seria uma manifestação da produção humana (talvez se pudesse dizer, da vida) no ambiente social. Portanto, essa produção, quando colocada para o mundo exterior, seria colocada em forma de inteligência. Ela precisaria ser colocada em uma ordem social, obedecendo a regras, a acordos.

Teria que ser ética e esteticamente aceitável pelo outro. Resumindo, os esforços de adaptação do sujeito ao mundo, em última instância, para viver, manifestam-se de maneiras diferentes em ambientes diferentes. A inteligência seria, portanto, a manifestação do mesmo ser humano no ambiente exterior, social, ordenada socialmente, regrada. Quando o ser humano precisa se fazer entender pelo outro ele realiza ações ordenadas, entendíveis, ou seja, inteligentes.

A inteligência, portanto, não seria um atributo exclusivo da razão, ou do cérebro, ou das palavras, mas qualquer ordem que possa ser entendida pelo outro, qualquer produção que ganhe, frente ao mundo social, contornos éticos e estéticos. Não importa se a manifestação se faça por palavras, por gestos, escritos ou mesmo, internamente, por pensamentos.

Prof. João Batista Freire
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Fonte: www.decorpointeiro.com.br

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