Não é só a genética que explica a barreira de rendimento esportivo

Na juventude, ele foi atleta. Com o avançar da carreira, percebeu que seu rendimento já não era mais o mesmo: para correr a uma determinada velocidade, por exemplo, precisava treinar mais do que antes. Ele olhou à sua volta e viu que, em esportistas, o fenômeno era mais comum que imaginava. Pesquisou em livros, leu relatos parecidos, mas não obteve nenhuma explicação. Resolveu, então, pesquisar o assunto mais a fundo na Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) da USP.

Esse ex-atleta e atual professor da EEFE é Benedito Pereira, que, juntamente com estudantes de pós-graduação da Escola, forma um grupo que estuda as barreiras de rendimento esportivo. Essas barreiras representam o limite da evolução física de um esportista – aquele mesmo que Pereira enfrentou na juventude. “A história dos atletas de alto nível é a de que eles vão atingir um ponto e que vão parar de se desenvolver, mesmo aumentando-se a sobrecarga”, afirma. A equipe procura, desse modo, investigar o que aconteceu no organismo do atleta para que ocorresse a interrupção no efeito positivo do treinamento.

Hoje, a explicação consagrada para a barreira de rendimento físico é a genética. O DNA do ser humano já diz qual é o ponto máximo de eficiência que um indivíduo pode alcançar na vida esportiva. A diminuição do rendimento conforme o avanço da idade, por exemplo, está relacionada a essa questão. Mas, segundo Pereira, o código genético não é a única razão.

As outras explicações incluem treinamento não eficaz, alimentação de baixa qualidade e aspectos da qualidade de vida do atleta. O professor enfatiza esses fatores em detrimento da causa genética, já que eles podem retardar o aparecimento da barreira. “É possível você intervir”, diz. “Porque combater o genético não adianta, a não ser que eu faça um tratamento genético.”

Do auge à queda livre


Ronaldo, “o Fenômeno”, pode perder o apelido em breve, se consideradas as contusões que apresenta constantemente. Os problemas que o jogador teve se devem principalmente a um super-treinamento, fato muito comum em jogadores de futebol. O professor Benedito Pereira explica o processo: “um atleta adolescente começa a apresentar muitos resultados. O técnico, então, começa a estimular o treinamento. Quando a curva de desempenho começa a parar, o esportista pára de responder. O técnico quer reverter, mas já e tarde”, explica, enfatizando a “alta rotatividade” dos jogadores de futebol do Brasil, que, em geral, começam a carreira muito cedo. E as contusões, segundo Pereira, são um sinal de que algo não está indo bem, principalmente porque o treinamento excessivo é um dos fatores que podem levar o esportista a alcançar sua barreira de rendimento físico mais cedo.

O treinamento ineficaz é o mais importante entre os fatores que aceleram a aparição da barreira, principalmente quando se treina excessivamente. Nesses casos, o esportista se prejudica porque todo o potencial de evolução que ele tem é esgotado nesse super-treinamento. Isso acontece principalmente quando o indivíduo começa a treinar determinada modalidade muito jovem. O judô e a ginástica artística são exemplos de esportes que se costuma começar a praticar desde a infância, e então a barreira de rendimento acaba sendo alcançanda precocemente. Como conseqüência, “o atleta vai uma vez nas Olimpíadas e depois não aparece mais”, diz Pereira.

Uma alimentação inadequada no início da vida do indivíduo e até mesmo a da mãe da criança durante a gravidez também podem comprometer o futuro do esportista, já que têm o poder interferir tanto na construção da informação genética como na expressão da mesma.

As condições sociais e econômicas do esportista desde a infância, como os incentivos materiais e psicológicos dados a ele para o treino e os locais de treinamento são também fatores para a barreira. Segundo Pereira, é importante saber “se em casa a criança teve um tratamento adequado, se ela conviveu em um meio ambiente propício”. “A criança vira um atleta hoje, mas nasceu e viveu dentro de um apartamento!”, critica.

Ineditismo

Segundo o docente, a pesquisa realizada por ele e sua equipe é inédita, já que o que existe sobre o assunto são mais relatos de experiências. “O estudo do esporte sempre se preocupou em criar condições para elevar o desempenho e não em entender por que o atleta parou de elevá-lo”, diz. É por isso que o professor tenta explicar o fenômeno, analisando aspectos fisiológicos e a bioquímica do organismo. “Até hoje ninguém falou que fez treinamento errado”, afirma.

Texto: Saulo Yassuda – saulo.fujii@usp.br

Fonte:
USP Online

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