O Jogo como Conteúdo de Ensino para a Prática Pedagógica da Educação Física na Escola

Introdução

O jogo tem despertado durante séculos interesses de diversos estudiosos; na idade contemporânea este interesse tem sido ampliado. Para entendê-lo e compreendê-lo melhor, buscamos informações em alguns desses estudiosos que nos possibilite perceber sua essência, seu conceito e suas características, na intenção de contribuir teórico-metodologicamente para a prática pedagógica da Educação Física na escola. Para Huizinga (1988), a intensidade do jogo como seu poder de fascinação não são explicados por análises biológicas. Portanto, ao considerar esta intensidade, essa fascinação, como também esta capacidade de excitar, verificam-se a essência e a característica principal do jogo.

O autor ainda considera o jogo uma “totalidade”, no moderno sentido da palavra, e assim deve ser avaliado e compreendido. A vivacidade e a graça, elementos de beleza, estão ligados às formas mais primitivas do jogo, neste sentido “a beleza do corpo humano em movimento” chega ao seu apogeu. Considerando as formas mais complexas do jogo, encon-tramos o ritmo e a harmonia, importantes dons de que dispõe o homem.

Aborda Huizinga (1988), entretanto, que são muitos os laços que ligam o jogo e a beleza, pois o jogo faz parte da vida, embora não passível de uma definição clara em termos “lógicos, biológicos ou estéticos”. Esta definição permanece distinta de várias formas de pensamento, nas quais se exprime “a estrutura da vida espiritual e social”. Frente às diversas contribuições sobre o jogo, trazidas por Huizinga (1988), as principais características têm despertado interesses de vários estudiosos: A primeira está no fato de o jogo ser livre e ser próprio de liberdade.

Ele jamais deve ser imposto pela necessidade física ou pela obrigação moral, e nunca é constituído de tarefa, sendo praticado sempre nas horas de ócio. Estar ligado a noções de obrigação e dever, somente quando é constituído por uma função cultural reconhecida. Na segunda característica, o jogo nega a vida “corrente” e a vida “real”. Trata, entretanto, de sair desta vida “real” para uma “esfera temporária de atividade”, escolhendo a própria orientação. A criança sabe diferenciar o faz-de-conta da brincadeira. Este fazer de conta não impede que o jogo seja realizado com seriedade e com entusiasmo. “Todo jogo é capaz, a qualquer momento, de absorver inteiramente o jogador”.

Como terceira característica, verificam-se o isolamento e a limitação, pois o jogo se afasta da vida comum, quanto ao lugar e à duração. Ele é jogado até o fim, considerando os limites de tempo e espaço. No momento de realização do jogo “tudo é movimento, sucessão, associação, separação”. Uma quarta característica considera o jogo como fenômeno cultural. Mesmo após o seu término, ele é conservado na memória, transmitido, podendo tornar-se tradição. A repetição pode acontecer a qualquer momento, mesmo sendo um jogo infantil ou um jogo de xadrez.

O limite do espaço no jogo é mais evidente do que o limite do tempo. Todo jogo é realizado em um campo previamente delimitado, em cujo interior se respeitam as regras determinadas. Já na quinta característica o jogo cria ordem, introduzindo no mundo imperfeito, mesmo por tempo limitado, um mundo perfeito. Exige-se, portanto, para esta perfeição uma ordem “suprema e absoluta”. O não cumprimento desta prejudica o jogo, privando o jogador de seu caráter próprio e de todo e qualquer valor. A profunda afinidade existente entre a ordem e o jogo liga-se ao domínio da estética.

Há neste domínio uma tendência para ser belo, lançando sobre todos nós um feitiço: é “fascinante”, “cativante”. Preenche duas qualidades importantes, que nos levam a ver nas coisas “o ritmo e a harmonia”. O jogo desempenha ainda um elemento de tensão, elemento importante que significa acaso. No jogo verifica-mos o esforço do jogador até o final, pois ele pretende ser vitorioso à custa deste esforço. A tensão no jogo existe. Ela domina os jogos solitários de destreza, “como os de quebra-cabeças, os de charadas, os de armar, os de paciência, os de tiro ao alvo…” Neles, quanto mais presente o espírito competitivo, mais apaixonantes se apresentam. Esta tensão se evidencia em exagero nos “jogos de azar e nas competições esportivas”.

A este elemento de tensão deve ser conferido um valor ético, na medida em que a qualidade do jogador, a capacidade espiritual e a “lealdade são colocadas em prova”. Isto porque, mesmo ao considerar o desejo da vitória, aquele jogador deverá sempre respeitar as regras do jogo. Huizinga (1988) analisa que a desobediência a essas regras acarreta “a derrocada do mundo do jogo”, pois, ao acabar o jogo, logo após o apito do juiz, é quebrado o feitiço e recomeça então a vida “real”. Durante a realização do jogo, os costumes, as leis da vida cotidiana perdem validade. Este afastamento temporário “do mundo habitual” é inteiramente comum no mundo da criança.

Ao longo da História o homem vem dando diversas e distintas sistematizações acerca do jogo, perspectivando entendê-lo melhor, classificando-o, conceituando-o, categorizando-o, reconstruindo-o etc, na intenção de poder melhor usufruir deste bem. Para classificá-lo, diferentes elementos foram tomados como referência; diante do material utilizado no jogo ele apresenta-se como jogo de cartas, jogo de dados, jogo com bola, jogo eletrônico etc; diante do local onde se realiza o jogo ele apresenta-se como jogo de quadra, jogo de campo, jogo de salão, jogo de mesa etc; diante da atividade ênfase que o jogo desenvolve ele apresenta-se como jogo de pensamento lógico, jogo de faz-de-conta, jogo de memória, jogo de atenção etc; diante da função do jogo ele apresenta-se como jogo educacional, jogo terapêutico, jogo olímpico, jogo de azar etc.

Assim uma infinidade de classificações de jogos surgem para melhor categorizá-lo. A Educação Física, enquanto atividade curricular nas escolas, que responsabilizava-se, em diferentes momentos históricos, por realizar, com os alunos, atividades ginásticas, esportivas, recreativas e outras, incorpora o jogo para suas atividades no interior das sessões de aulas. O jogo aparece como momento de descontração de aulas altamente disciplinadas; o jogo aparece como instituição esportiva, sendo exigido o rendimento técnico; o jogo aparece enquanto momento de lazer, de brincadeira caracterizando-se como catarse de um ensino autoritário; o jogo aparece enquanto premiação após a realização de sessões de aulas com alto índice de desgaste físico; o jogo aparece enquanto “conteúdo” mais adequado a ser trabalhado com os alunos: queimado para as meninas e futebol para os meninos.

Em meado da década de 80 surge um entendimento diferenciado e inovador para a Educação Física. Este sugere que a Educação Física seja compreendida enquanto prática pedagógica que tematiza elementos da Cultura Corporal, tendo como seu objeto de estudo a Expressão Corporal como Linguagem (Coletivo de Autores, 1992). Desta forma, o acervo de conhecimentos da humanidade, acumulado ao longo da História, referente a cultura corporal, passa a ser sistematizado e organizado através de temas que representam conteúdos de ensino para as aulas de Educação Física.

Assim não é mais prudente utilizar-mos o JOGO enquanto atividade para as sessões de aulas, já que a perspectiva é superar o entendimento de Educação Física enquanto atividade curricular e construir uma legitimação pedagógica para entendê-la enquanto disciplina curricular (Bracht, 1992). A partir da compreensão de Educação Física enquanto disciplina curricular (prática pedagógica), nós profissionais da área, devemos organizar e estruturar a ação pedagógica de forma que o JOGO seja entendido, apreendido, refletido e reconstruído enquanto conhecimento que constitui o acervo cultural da humanidade, possibilitando sua constatação, sistematização, ampliação e aprofundamento (Coletivo de Autores, 1992).

Diante desses elementos estabelecemos, para as aulas de Educação Física, uma sistematização mais específica a respeito do jogo; de forma que seja entendido enquanto conhecimento, não perdendo sua essência e características enquanto fenômeno cultural. Assim identificamos e propomos uma sistematização em que são evidenciadas categorias, características, classificações e conceitos acerca do jogo:

  • à JOGOS DE SALÃO
    são aqueles conhecidos também como jogos de mesa, em que o jogador desprende menos energia por parte da movimentação corporal, realizados em pequenos espaços, geralmente em ambientes mais fechados (salas), usando-se tabuleiros e pequenas peças para representação dos jogadores, em que suas regras são pré-determinadas. Na atualidade muitos desses jogos são pré-fabricados – industrializados.
  • à JOGOS POPULARES
    são aqueles conhecidos também como jogos de rua, em que seus elementos podem ser alterados/decididos pelos próprios jogadores, portanto apresentando-se com uma variabilidade no número de participantes, com uma flexibilidade de regras, e sem exigir recursos materiais mais sofisticados, pois sua gênese está na cultura popular.
  • à JOGOS ESPORTIVOS
    são aqueles que assumem características de esportivização, geralmente são conhecidos como esportes coletivos, salvo algumas excessões como o tênis, o tênis de mesa etc. Estes fazem, ou tem como meta fazer, parte dos jogos olímpicos, devido ao próprio processo de reconhecimento enquanto esporte. Seus elementos são bem definidos, padronizados, e institucionalizados por entidades organizacionais, suas regras são determinadas com rigorosidade procurando atingir a universalidade, podendo apenas ser alteradas por aquelas entidades.
    Esta sistematização objetiva trazer uma estruturação mais específica a respeito do conhecimento JOGO, a fim de proporcionar uma melhor delimitação em forma de conteúdos de ensino para a prática pedagógica da Educação Física na escola.


    Referências Bibliográficas

     

    • BRACHT, Valter. Educação Física e Aprendizagem social. Porto Alegre: Magister, 1992.
    • COLETIVO DE AUTORES. Metodologia do ensino da Educação Física. São Paulo: Cortez, 1992.
    • HUIZINGA, Johan. Homo ludens. São Paulo : Perspectiva, 1988.

     

     

    Marcelo TAVARES
    Marcílio SOUZA JÚNIOR

    Fonte:
    Revista Corporis
    Ano I, Número 01 Jul / Dez 96

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