O Jogo e o Lazer

Por meio deste texto, faremos as correlações entre o jogo e o lazer numa perspectiva atual e contemporânea, no sentido de tornar o trabalho do educador físico, funcional. Portanto, analisaremos o jogo e o lazer na perspectiva de sua profissão.

Iremos fazer a abordagem do jogo, suas características, classificações, seus objetivos e funções, mudando de foco para o lazer, suas ocorrências, decorrências, influências, objetivos e funções, mostrando um elo entre os dois objetos de estudo propostos.

O jogo é um elemento inerente ao ser humano, desde a constituição deste como ser. Numa dimensão filosófica, o jogo serve para desafiar a perspectiva de solucionar questões, ou seja, trata-se do fator de superação individual da dúvida. Para Mariotti (2004) “O jogo é natural ao homem desde sua condição animal, permite-lhe elevar-se, satisfazer-se, elevar a estima”.

Quando nos comparamos, em situação de jogo, com a vida animal, constatamos que até os animais jogam. Percebemos que o ato de jogar uma bolinha para um cachorro apanhar, os ratinhos de laboratórios correndo em suas redomas como se estivessem fazendo exercícios físicos, e o jogo de sedução dos animais pela aceitação da fêmea, são características inerentes ao desenvolvimento global dos seres. Assim, de uma importância singular, todos se caracterizando com diferentes dimensões do jogar instintivo e animal.

Tal qual para os animais, o jogo serve como fator desenvolvimentista do ser humano, estando ligado a fatores socioculturais, psíquicos e físicos. O mesmo autor afirma em Jogos e Recreação (pág. 134), que “(…) pelo jogo, a criança descobre seu corpo e o adulto revaloriza seu corpo, e o abre para o mundo.”. O autor preza pela relação entre o jogo e a criança como fator de formação global do adulto que está por vir.

Roger Caillois em Los juegos y los Hombres (México, 1994), analisou as habilidades e os interesses dos indivíduos para se pensar em classificação das atividades recreativas. Com relação ao jogo podemos dizer que Caillios o classificou em Agón, que significa ganhar e aparece no “jogo com o outro”, dando um caráter de superioridade. Como dissemos anteriormente, no reino animal na dimensão do jogo da sedução, quem vence o “jogo” fica com a fêmea.

Uma outra reflexão importante com relação ao jogo seriam as suas decorrências no processo de formação da personalidade. Será que jogos para meninos e para meninas devem ser diferenciados? Será que os jogos são fatores que influenciam o despertar da sexualidade?

Não são os jogos que comprometem a escolha da identidade sexual das crianças. Meninas podem jogar bola; meninos, dançar ou cozinhar, lembrando que os melhores “chef’s” (de cozinha) são homens. “O que definirá e influenciará no despertar da sexualidade é o vínculo que se estabelece com a presença das figuras masculinas e femininas em suas criações. As crianças têm que se identificar com pais do mesmo sexo.”, afirma Mariotti. Devemos também respeitar as características de cada faixa etária, e das condições para a aplicação dos jogos.

Analisemos uma das práticas que regem nossa humanidade: o Desporto.
Desporto é a sistematização efetiva do jogo pelo alto grau de organização e aprofundamento de técnicas, equipamentos, aperfeiçoamento científico, correndo o risco de perder seu caráter lúdico. Praticado absolutamente por todos os povos de todas as crenças e regiões do nosso planeta, em diferentes formas, sendo adaptáveis em sua aplicação e participação.

Com relação à importância do jogo, temos alguns aspectos a analisar. Vamos a alguns pontos de vista:

Do ponto de vista do aspecto físico: no jogo o indivíduo se prepara fisicamente, explora seu corpo na relação corpo espaço. Com relação aos movimentos naturais: correr, saltar, atirar, esquivar, etc. Estruturas básicas de formação e aptidões inerentes ao ser humano, são utilizadas, exigidas e desenvolvidas através de jogo.

Do ponto de vista emocional: o jogo traz o compromisso com o jogar no sentido de confiança em si mesmo. Ressalta o poder e o fracasso. Consiste em vivências em transformação para a experiência.
No âmbito social: possibilita o processo de integração pela aceitação do cumprimento a regra, da sistematização do jogo. Ser reconhecido e aceito pelo grupo. Respeito pelo adversário, ação solidária com o grupo, sacrifício do êxito pessoal pelo êxito do grupo.

No aspecto intelectual: por enfrentar situações que variam até mesmo em graus de dificuldades, é preciso a cada jogo, usufruir da capacidade de analisar e resolvê-los. Quanto mais complexo o jogo, maior a exigência da inteligência.

Fizemos, então, uma reflexão abrangente sobre o jogo no tocante às aplicações, contextualizando o jogo como fator preponderante à existência do homem.
Passando pela reflexão desenvolvimentista e pelas características da busca e da objetividade, fazendo uma analogia com o real e o imaginário da criança e do adulto.

Façamos uma breve análise sobre as fases do jogo. Para Nicanor Miranda, as fases do jogo são:

• Preparação: é a fase efetiva da preparação. Arrumar o local, divisão de equipes, posicionamento dos participantes.

• Evolução: é o jogo propriamente dito. A execução das regras. Vai desde o início da movimentação até o término da ação. O instrutor deve fazer a observação do participante, onde ele se coloca espontânea e livremente, e onde se mostra quanto à personalidade.

• Final: é exatamente no término, quando se descobre a sensação de vitória ou perda. Momento onde as crianças praticam a arte do respeito em cumprimentar seus adversários e de comemorar com gritos, saltos e alegria. A vibração, grito, cânticos constituem manifestações de prazer pela participação e ainda mais pelo ato de superação, sendo verdadeiros exercícios de ginástica respiratória. Lagrange afirma: “o grito é para os pulmões o que o salto é para as pernas”.

Portanto, do ponto de vista fisiológico, mais vale incentivar de forma coesa, organizada e criativa a comemoração e vibração relacionadas com a prática do jogo.

Como escolher o jogo:

Deve se conhecer a criança em sua totalidade. Tanto no aspecto psicológico, fisiológico, cultural e social em que ela se encontra.
Deixar a conotação de livre escolha, a não imposição que subtrai o caráter lúdico e suprimi o prazer intrínseco.

Como ensinar o jogo:

O recreador teve ter o constante espírito de cordialidade – proporcionando prazer pela simples participação.

Para explicar o jogo, além de conhecimentos teóricos, deve ele ter experiência e prática. Devem ser analisadas as condições dos participantes (crianças, jovens, adulto, proletárias, deficientes), e os espaços em que serão aplicados (clubes, escolas, hotéis, acampamentos). Deve, ainda, centrar-se em sua objetividade a fim de não perdermos o foco de excelência dos jogos.

Como ferramenta, podemos utilizar a demonstração, não retirando o sentido de individualidade do processo de criação no estabelecer dos movimentos e táticas para a prática.

Percebemos durante a nossa experiência profissional que o ato de demonstrar uma determinada prática de atividade, se torna exemplo da forma de participação. Portanto, não podemos eliminar o caráter individual da participação.

Como conduzir um jogo:

Jogo não dirigido é aquele em que o participante escolhe livremente e sua prática decorre da mesma maneira. De forma criadora e inovadora, o praticante determina o rumo que o jogo vai tomar, respeitando as regras que, mesmo impostas, são variáveis e vulneráveis.

Outrossim, o jogo dirigido é aquele em que o recreador deve ter uma postura de fiscalizador do cumprimento de regras pré-estabelecidas e mediador da funcionabilidade do jogo.
Atenção para a saudação em forma de torcida. Deve ser estimulado que ocorram tais manifestações, pois são fatores preponderantes da viabilização de energia e válvulas de escape para decepções no caso de derrotas.

Acreditamos, assim como Nelson Marcellino, que o jogo não perdeu seu espaço mesmo com a modernidade, globalização e esta revolução tecnológica em que estamos vivendo. Pode ser que as manifestações do jogo e decorrentes dele, venham a ser alteradas, pois já podemos jogar uns com os outros virtualmente sem sair de nossas casas, mesmo o jogo tendo um caráter integrativo e social. Mesmo nesses casos, os indivíduos buscam socialização e integração por meio de práticas desportivas caracterizadas pelo jogo.

Segundo Barbanti, o jogo “É uma forma de competição prazerosa cujo resultado é determinado por habilidades motoras, estratégias ou chances, empregadas simplesmente ou em combinação.” Por ser prazeroso, atrai a grande massa da população cujas habilidades são colocadas em evidência e as insere em determinados contextos sociais, portanto.

A classificação dos jogos:

Existem diversos autores que escrevem sobre a classificação dos jogos. Encontramos vários que colocam três classificações mais abrangentes e utilizadas: pequenos, médios e grandes.
Os pequenos são aqueles jogos com poucas regras e bem maleáveis, poucos materiais, em locais menores ou restritos, com menos participantes, menor duração e até a explicação se torna mais rápida, mais fácil para a compreensão.

Os jogos médios são aqueles onde as regras já estão mais elaboradas, os materiais são específicos, pode haver mais disputas diretas (principalmente física), os locais devem ser maiores ou espaços livres. A duração desses jogos é maior e a explicação exige certo cuidado para a melhor compreensão dos participantes.

Os grandes são os jogos mais elaborados, com regras complexas e que exigem uma explicação detalhada e minuciosa para que haja compreensão pelos participantes. Os materiais são bem específicos e muitas vezes utilizados apenas para as referidas atividades. Quanto ao local, deve ser amplo e aberto, visto que muitas vezes se utiliza mais de uma estrutura como quadras, ginásios, piscinas, salões num mesmo jogo. A quantidade de participantes também deve ser grande, visto que a maioria das habilidades é requisitada nesse tipo de jogo.

Temos também os cooperativos e pré-desportivos.

Os cooperativos baseiam-se em cinco princípios básicos, que segundo Soler (2003), são:

Inclusão: trabalhar com as pessoas no sentido de procurar ampliar a participação;
Coletividade: mesmo sendo cooperativos, não se despreza o valor da individualidade;
Igualdade de direitos e deveres: participação, responsabilidade de todos, partilha de benefícios;
Desenvolvimento humano: o ser humano e seu aprimoramento enquanto sujeito social;
Processualidade: glorifica os processos; cada passo é dado levando em conta os anteriores.

Baseando-se no folclore brasileiro temos outra classificação: seleção, gráficos, competição, salão, com música.

Percebemos que cada autor que classifica as atividades recreativas e os jogos, tem visões, focos e abordagens diferentes para um mesmo contexto. Para que seja pensada uma determinada classificação, são levadas em consideração as necessidades dos participantes, através da motivação preconizada por Maslow, e os objetivos dos jogos propostos.

Por esse motivo é importante entendermos a importância da classificação das atividades. Conseguiremos, assim, uma melhoria na qualidade do nosso trabalho, pois vincularemos as atividades corretas nos contextos adequados, atingindo e satisfazendo os objetivos tanto de quem as aplica quanto os quem dela participam.

Vimos que um elemento inerente ao jogo é a disputa e veremos a seguir que a disputa é para o ser humano um fator de motivação intrínseca, que nos leva à prática de atividades competitivas em nosso tempo disponível, chamado de livre ou de lazer por alguns autores.

Para o escritor chinês Lin Yutang, “o que define o jogo é que a pessoa joga sem qualquer razão, e que não deve haver razão para jogar, Jogo é a razão suficiente, nele está o prazer da ação livre, sem travas, com a direção que o jogador quer dar-lhe, tanto se parece à arte, como impulso criador”, e partimos dessa premissa pra iniciarmos o estudo das relações de jogo e lazer.

Podemos fazer agora o elo da corrente entre os dois objetos de nossa observação.
Lazer é um termo muito complexo para se conceituar e ainda é observado por estudiosos de vários ramos do conhecimento.

Em síntese, vamos entender lazer, do ponto de vista social, como o tempo, momento em que o indivíduo se encontra na busca pelo prazer através de ações sócio-culturais de caráter individual e subjetivo.

Porém, isso não significa que, em toda busca, encontrar-se-á prazer e que esse prazer só aconteça dessa maneira.

Uma caracterização do jogo como ferramenta de lazer está na sua caracterização. Para Piaget e Huizinga, o jogo é uma atividade gratuita marcada pelo prazer. Vigotsky afirma que nem todo jogo é agradável, pois o prazer depende da qualidade das interações sociais que ocorrem durante o jogo e do nível de expectativa de quem brinca. Alguns atribuem prazer à vitória, podendo sair insatisfeitos ao serem derrotados ou excluídos.

O lazer acontece em muitos locais e de diversas maneiras. Vamos elencar alguns que sejam pertinentes à prática do profissional de educação física e do educador em geral e onde ele possa aplicar suas técnicas de jogos.

Em se tratando de jogo como forma de lazer, ele pode ser inserido em diversos equipamentos de lazer. Há os equipamentos específicos e os não específicos.

A diferença básica desses equipamentos é o propósito de sua idealização, viabilização e construção. Os não-formais foram construídos para diferentes fins que não de práticas de lazer, mas que permitem que elas aconteçam em seus espaços. Os equipamentos formais são aqueles que foram idealizados e construídos especificamente para a prática do lazer, tendo públicos e objetivos direcionados.

Citaremos alguns equipamentos de lazer onde o jogo pode acontecer: hotéis, acampamentos, acantonamentos, escolas, praças públicas, clubes, condomínios e todos os locais que possibilitem prática de jogos. Em cada um desses equipamentos se trabalha os jogos de diferentes formas e aplicações e com diferentes faixas etárias. Não iremos nos aprofundar em cada um deles, pois não é o foco deste artigo.

Em se tratando especificamente do público infantil, devemos saber que o jogo é um direito e deve ser assegurado a todas as crianças, segundo a declaração universal dos direitos das crianças, de 20 de novembro de 1959: “ a criança deve desfrutar plenamente de jogos e brincadeiras, os quais deverão estar dirigidos para a educação, lazer…” (princípio 7º).

Faz parte do desenvolvimento de qualquer criança participar de jogos, mesmo que esses não sejam apenas fisicamente. Santin reforça que “a ludicidade se constitui por uma atmosfera de total liberdade e autonomia”. Um adulto se torna mais equilibrado quando passa por todas as suas fases de desenvolvimento participando de atividades pertinentes às suas necessidades. Reforçamos a idéia de que o jogo auxilia no desenvolvimento global da criança.

Segundo Pimentel, do ponto de vista do jogo enquanto esporte aliado aos conceitos básicos do turismo, podemos destacar que o profissional de educação física poderá trabalhar com o jogo de três formas abrangentes:

Espetáculo: são amistosos da seleção, por exemplo;

Brincadeira: jogos pré-desportivos que se caracterizam pela alteração de regras e busca trabalhar os fundamentos de um ou mais desportos de forma lúdica;

Atividade recreativa: jogo formal e não formal com o objetivo exclusivamente de lazer.

Para o profissional de educação física especificamente, são várias as opções das formas de aplicação dos jogos em sua profissão.

Cabe a cada profissional analisar, refletir sobre sua atuação, a fim de melhorá-la para que nos tornemos profissionais melhores, com mais mercado de trabalho e que possamos promover a qualidade de vida das comunidades nas quais estamos inseridos.

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Prof. Esp. Mauricio Leandro
Graduado em Educação Física (FAEFI), Pós graduado em Educação, Qualidade de Vida e Saúde (FTC), Pós graduando em “Docência no Ensino Superior”

Fonte:
www.tiochoquito.com.br

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