O Sistema Nervoso Também Ama: Amor Platônico Entre Células Nervosas

Existe um lugar mágico, não muito distante daqui, onde habitam seres (chamados células) que fazem parte de um complexo sistema, denominado Sistema Nervoso. Esses seres podem ser agrupados em duas categorias: os neurônios, que utilizam seu tempo a receber, integrar e transmitir informações; e as glias, que fornecem apoio estrutural e isolamento para os neurônios – são aqueles amigos que dão apoio sempre. Os neurônios, vale a pena lembrar, são seres expansivos que não tem pudor em se comunicar com músculos, órgãos sensoriais glândulas e outros neurônios.

Voltemos nossa atenção, neste momento, para um casal em especial: neurônio João e neurônio Tereza. Esse é um casal típico! Assim como muitos outros de sua espécie, cada um possui um corpo celular (também denominado soma), dendritos (com função de receber informações), axônios (que são fibras longas e finas que transmitem sinais do corpo celular para outros neurônios, por exemplo) e a bainha de mielina (material isolante que envolve os axônios). Um belo dia, o neurônio João, que estava em potencial de repouso (-70 milivolts), ou seja, estava inativo, estava à toa (com sua membrana polarizada, negativamente carregada por dentro e positivamente carregada por fora) foi surpreendido.

Eis que chega um ser que atende pelo nome de cupido (estimulo externo). O cupido, que tem o poder de ocasionar estimulação de intensidade suficiente, começa a disparar suas flechas de amor, perturbando a estabilidade, alterando momentaneamente a permeabilidade da membrana celular do neurônio João. Quando o neurônio é estimulado, além de tornar-se romântico e apaixonado, ele abre canais na sua membrana celular permitindo que haja passagens de íons positivos e negativos, criando um sentimento inicial de amor: o potencial de ação (mudança muito breve na carga elétrica de um neurônio).

Esse sentimento começa a dominar o neurônio João e, como uma faísca correndo numa trilha de pólvora, a mudança de voltagem viaja pelo seu axônio. O amor, dessa forma, contagia a todos, criando um impulso nervoso, uma corrente elétrica que flui ao longo do axônio, como resultado do amor inicial (potencial de ação), que vai se alastrando para os demais neurônios. Esse impulso nervoso é do tipo tudo ou nada: ou está amando ou não está, não há meio termo. Quando o neurônio João recebeu o impulso nervoso, tornando-se um ser apaixonado, encheu-se de iniciativas para conquistar o neurônio Tereza. Tão perto e tão longe ao mesmo tempo…

Um amor platônico iria surgir. Neurônio João tão perto de neurônio Tereza, mas, por acaso do destino, não podem se tocar – uma sinapse os separa. Neurônio João, munido de criatividade própria de todo ser apaixonado, utiliza recursos para comunicar ao neurônio Tereza o seu amor. O neurônio João põe-se a escrever cartas de diversos tipos para tentar conquistar o neurônio Tereza. Com essas cartas há chaves, chamadas neurotransmissores, que podem ser de diversos tipos: noradrenalina, serotonina, dopamina, acetilcolina…

Cada uma destas cartas carrega, além de informações e declarações apaixonadas, essas chaves muito especiais que podem abrir as caixas do correio do neurônio Tereza. Para proteger suas cartas, o neurônio João as coloca em envelopes denominados vesículas sinápticas que podem ser encontradas nos botões terminais do seu axônio. A chegada do potencial de ação nos botões sinápticos do neurônio João faz com que os envelopes se abram liberando as cartas, com suas respectivas chaves, através das sinapses, em direção a membrana celular do neurônio Tereza.

Para que o neurônio Tereza leia as cartas é preciso que a respectiva chave tenha aberto uma de suas caixas correio. Quando a chave combina com a fechadura (o receptor), as reações na membrana celular causam um novo sentimento de amor: o potencial pós-sináptico (alteração de voltagem no ponto de recepção de uma membrana celular pós-sináptica). Quando a chave não encaixa na fechadura, o neurônio João desativa as cartas que sua amada não pôde ler. Apaixonado e confuso, neurônio João pode misturar cartas novas com cartas velhas que foram reabsorvidas. Para que essa mistura não ocasione envio de cartas feias, velhas e ilegíveis para sua amada, ele trata de reciclá-las, ou destruí-las através da monoaminoxidase (enzima MAO).

A comunicação desse casal nas sinapses, portanto, envolve cinco passos:

1. o neurônio João tem a idéia, escreve as cartas de diferentes tipos e as coloca em envelopes com suas chaves (síntese e armazenamento de transmissores);
2. envia as chaves e cartas já abertas para que sua amada não tenha trabalho algum em abrir os envelopes (descarga de transmissores na fenda sináptica);
3. o neurônio Tereza identifica as chaves que abrem suas caixas de correio e lê apenas aquelas cujas chaves combinaram com perfeição (ligação dos neurotransmissores a locais de recepção na membrana pós-sináptica);
4. as cartas não lidas são desativadas, descartadas para que outros não interfiram nesse amor (desativação ou remoção de transmissores dos pontos de recepção);
5. o neurônio João reabsorve as cartas que sua amada não pôde ler (reabsorção de transmissores pelo neurônio pré-sináptico).

Os neurônios vivem esse amor platônico e de adolescente: eles estão ligados numa rede complexa, recebendo e mandando cartas para vários outros neurônios. Esse sentimento dúbio e confuso acaba por algumas vezes produzindo cartas defeituosas. Esse defeito causa problemas conhecidos como enxaqueca (liberação em dosagens erradas de, principalmente, neurotrasmissor serotonina), e/ou depressão (desequilíbrio entre os neurotransmissores serotonina e noradrenalina, que são importantes mensageiros químicos entre os neurônios), no sistema em que vivem. Não tendo certeza do amor do outro, os neurônios se declaram a muitos outros de sua espécie, aos quais se “ligam”, na doce ilusão de serem, um dia, correspondidos.

E quanto a João? Pobre neurônio João… Mal sabe ele que neurônio Tereza está apaixonado sim, mas pelo neurônio Raimundo, onde tudo começa outra vez.

“João amava Tereza que amava Raimundo que amava Maria
que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém.”
Carlos Drummond de Andrade

Autores:
Raquel Felipe de Vasconcelos
Aluna especial do Mestrado em Ciências Fisiológicas pela Universidade Estadual do Ceará
Angélica de Oliveira Fernandes
Graduada em Educação Física pela Universidade Federal do Ceará
Adriano César Carneiro Loureiro
Mestre em Ciências Fisiológicas pela Universidade Estadual do Ceará
Professor do Curso de Fisioterapia da Faculdade Christus


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