O Treinamento da Velocidade para as Corridas de Fundo: Consideração sobre o Método Fartlek

Na preparação dos corredores de fundo de alto rendimento, a velocidade de corrida é um atributo essencial para as pretensões de qualquer atleta, seja em relação às vitórias ou aos recordes pessoais.

Embora o atleta que apresente rendimento diferenciado esteja submetido a um volume de treinamento elevado – acima de 160 km semanais – é primordial a preparação em velocidade desde a primeira semana do ciclo inicial da periodização para a temporada competitiva.

Essa atual tendência metodológica justifica-se pelo fato de o corredor de alto rendimento já apresentar as premissas fisiológicas necessárias para receber os estímulos provenientes de um ritmo de corrida mais intenso logo no início da preparação.

Os atributos apresentados pelos corredores de fundo de alto desempenho competitivo em sua modalidade e que constituem a base de sua formação atlética específica de longos anos são:

  • Elevado taxa de consumo de oxigênio (VO2max);
  • Alta capacidade para mobilizar ácidos graxos para a produção da energia para a ação muscular de longa duração;
  • Maiores reservas musculares de glicogênio;
  • Eficiência nas funções termorreguladoras do organismo;
  • Menor acúmulo de lactato em ritmos de corrida mais elevados;
  • Melhor padrão de recrutamento das fibras musculares para o desempenho de longa duração;
  • Manutenção econômica de um elevado ritmo de corrida (menor gasto energético);
  • Maior resistência psicológica à dor e ao sofrimento.

Essas características, próprias do atleta de desempenho superior, permitem que a velocidade de corrida seja treinada desde a primeira semana da preparação, pois o corredor encontra-se em uma situação tal que, caso isso não seja executado, a baixa intensidade dos estímulos (treinamento exclusivamente aeróbio), irá proporcionar uma redução da sua capacidade de velocidade, pois os padrões de recrutamento muscular serão descaracterizados.

As implicações decorrentes do fato alteram a seqüência das adaptações bioquímicas que ocorrem nos músculos dos corredores, tornando o atleta mais lento em suas ações motoras específicas.

Como o volume de treinamento é fundamental para o sucesso nos eventos de longa duração no atletismo, a tarefa principal a ser considerada na elaboração da estrutura do planejamento da temporada competitiva é conciliar o aumento do volume com a intensidade de corrida que seja compatível com a capacidade do atleta.

A abordagem desse processo pedagógico nos conduz à utilização dos meios de preparação proporcionados pelos métodos contínuos variáveis.

Os métodos contínuos variáveis se caracterizam pela variação do ritmo de execução do exercício (variações na velocidade de deslocamento), onde os esforços são realizados numa intensidade de 70-95% do esforço máximo do corredor, sempre alternando fases de intensidade elevada com corridas lentas.

Se analisados em sua essência metodológica, ou seja, estímulo-recuperação, os métodos contínuos variáveis constituem uma forma de trabalho muito semelhante aos métodos de direção descontínua da carga, citando como exemplo o interval-training.

Entretanto, ao lançarmos uma visão mais detalhada em sua forma de aplicação, serão reveladas as diferenças elementares sobre um e outro método, encerrando definitivamente qualquer semelhança entre os mesmos.

A finalidade do emprego dos métodos contínuos variáveis é o aprimoramento da utilização dos sistemas energéticos solicitados (aeróbio-anaeróbio), e acelerar a capacidade de recuperação entre os diversos ritmos de esforços empregados na corrida.

Dentre os meios de preparação mais difundidos pelos métodos contínuos variáveis, apresentamos o fartlek.

O fartlek

O fartlek, termo de origem sueca que significa “jogo de velocidade” foi desenvolvido na Suécia, na região de Volondalen, por Goesta Olander, na década de 30.

Nesse tipo de treinamento, o corredor determina a velocidade e a distância dos estímulos, conforme a sua percepção de esforço e condição física, percorrendo percursos variados com aclives, declives e obstáculos naturais, em meio aos bosques e trilhas pelas florestas.

Os estímulos fortes são intercalados com pausas onde o corredor realiza uma corrida lenta ou até mesmo uma caminhada, para a sua recuperação. A freqüência cardíaca apresentará variações entre 140-180 batidas por minuto nesse tipo de treinamento.

Da Suécia para o mundo, de Olander até Lidyard e Cerruty, o fartlek já foi empregado por renomados treinadores e corredores de alto rendimento, que dele souberam tirar o melhor.

Atualmente, encontramos inúmeros corredores utilizando-se desse método de treinamento, embora com variações significativas em relação à suas origens.

O fartlek, inserido no contexto do processo pedagógico de preparação nas corridas de fundo, deve ser empregado preferencialmente após a utilização dos métodos contínuos e anteriormente aos métodos descontínuos, estando em conformidade com as leis biológicas que permeiam a ciência do treinamento desportivo.

Assim sendo, no planejamento das ações pedagógicas da preparação do corredor fundista de alto rendimento, a seqüência metodológica ótima para o treinamento da velocidade durante os períodos da preparação, relacionado ao fartlek, seria:

  • Treinamento Contínuo de Ritmo Invariável + Fartlek
    (Período de Preparação Fundamental)
  • Treinamento Contínuo de Ritmo Progressivo + Interval-training
    (Período de Preparação Específica)

Com o advento da ciência do treinamento desportivo foram desenvolvidas novas configurações para o fartlek. Apresentamos abaixo três tipos de fartleks oriundos dessas novas tendências, além do tradicional, com as devidas considerações e exemplos práticos:·

  • fartlek tradicional, sendo que o corredor decide em que ritmos deve correr, quais as distâncias e / ou duração do estímulo e o tipo de terreno (de preferência, com muitas variações, ou seja, grama, terra, asfalto, areia, aclives, declives, planos, etc.), tudo de acordo com a sua disposição do momento. A duração do treino deve estar compreendida entre 40 min a 2 horas. Pode ser utilizado como recurso pedagógico para a quebra da rotina e para promover a recuperação do corredor após períodos de grande acúmulo de fadiga física ou mental, pois permite a execução do treino sem compromissos com tempo / distância;
  • fartlek orientado, onde as variações de distância e ritmo são orientadas pelo treinador, sendo utilizado nas semanas iniciais da preparação do atleta. Exemplo: 2 km corrida lenta + 4 séries de 1000m x 800m x 600m x 400m x 200m em ritmo acelerado intercaladas com 200-400m de corrida lenta + 2 km de corrida lenta;
  • fartlek especial, onde há uma combinação de corridas de diferentes distâncias e ritmos, com exercícios especiais (saltos, educativos, etc.). Exemplo: 3 km corrida lenta + exercícios educativos intercalados com 50m de corrida lenta + seqüência de saltos intercalados com 50-100m de corrida lenta + acelerações de 100-200m intercaladas com 50-100m de corrida lenta + acelerações de 400m-800m intercaladas com 200m corrida lenta + exercícios para resistência de força muscular intercalados com 50-100m de corrida lenta + acelerações de 1000-2000m intercaladas com 400-800m corrida lenta + 3 km corrida lenta;
  • fartlek líder, pela formação de grupos de corredores do mesmo nível de condicionamento, onde um deles será o responsável pelas acelerações intermediárias, sendo que os demais deverão ultrapassá-lo. O treinador deverá orientar em relação às distâncias utilizadas ou a duração do estímulo e aos momentos de aceleração. O objetivo do trabalho é condicionar os corredores às acelerações intermediárias que ocorrem durante as competições esportivas. Exemplo: 3 km corrida lenta + 12 km intercalando 800-1200m corrida acelerada com simulações táticas com 400-800m corrida recuperativa + 3 km corrida lenta.

O fartlek, conforme a sua orientação, pode ser realizado na pista de atletismo, em trilhas pelos campos e bosques e em terrenos variados, sendo os percursos em meio à natureza aqueles que oferecem maiores atrativos aos corredores.

Podemos considerar o fartlek como um meio amplo e eficaz para o aprimoramento da capacidade atlética dos corredores de alto rendimento nas provas de fundo do atletismo, pois, além de assegurar a manutenção do volume adequado do treinamento, proporciona meios para o aperfeiçoamento da velocidade e ritmo de corrida. Treina-se a velocidade, porém, com quilometragem.

É fundamental que os técnicos disponham de recursos variados para a ampliação da capacidade do ritmo de corrida de seus comandados, tendo o conhecimento necessário para a correta distribuição dos meios e métodos de treinamento ao longo das etapas da preparação.

O fartlek, se empregado com critério e em momentos oportunos, terá a sua eficiência comprovada.

Bibliografia Recomendada:

BOMPA, T. Periodização: Teoria e Metodologia do Treinamento. 4a edição. São Paulo: Phorte, 2002

FORTEZA, A. Treinamento Desportivo: Carga, Estrutura e Planejamento. 1ª edição brasileira. São Paulo: Phorte, 2001

HEGEDUS, J. Estúdio de las Capacidades Físicas: la Resistência. Revista Digital: Educación Física y Deportes. Año 2, N° 7, Buenos Aires, Ouctubre, 1997.

MACHADO, M. Fartlek Total. Revista Spiridon, ano 25, nº 149, 22-27, Portugal, jul/ago, 2003

PLATONOV, V. BULATOVA, M. A Preparação Física. Rio de Janeiro: Sprint, 2003

VERKHOSHANSKY, Y. Treinamento Desportivo: Teoria e Metodologia. Porto Alegre: Artmed, 2001.

Autor: Prof. Marcelo Augusti
Técnico em Corridas de Fundo
Especialização em Fisiologia do Exercício e Treinamento Desportivo
(UNIFESP – Escola Paulista de Medicina)

Fonte: www.cbat.org.br

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