O verão está chegando, como avaliar o nadador através de protocolos indiretos

Sabemos que indivíduos que possuem uma habilidade maior demandam menos energia que indivíduos menos habilidosos para nadar a uma determinada velocidade, assim, uma maior distância. O uso de materiais específicos, assim como, recursos laboratoriais para avaliações especificas do nadador é muito difícil de se encontrar nas academias ou clubes especializados na modalidade,  bem como a presença destes materiais em alguns locais mas sem uso devido a manutenção que é muito cara o que pode acarretar aumento do custo para o cliente ou clube e academia.

Uma das formas mais eficientes encontradas na literatura para encontrar a condição cardiorespiratória dos indivíduos sem a necessidade de aparelhos sofisticados é através do teste de 30 minutos (OLBRECHT 1985) que visa a manutenção da velocidade durante todo o teste sendo este um referencial da capacidade aeróbia nos indivíduos sem a avaliação de testes sanguíneos (como o teste de duas distância) consagrado na literatura e que visa o mesmo tipo de medida. O teste realizado em 30 minutos (1800 segundos) e a maior distância atingida durante esse período é utilizada para o calculo da velocidade

(Equação 1):

Distancia total percorrida (metros)

Tempo Total (1800 seg.)

T30 = 2300

1800

T30 = 1,28 m/s

        O valor hipotético encontrado nesse caso para o modelo acima é de 2300 metros percorridos durante 30 minutos (1800 segundos) e o valor encontrado para a transição metabolismo era aeróbio-anaeróbio é de 1,28 m/s o que corresponde a uma velocidade a cada 100 metros percorridos de 1’18”12 (Equação 2), sendo esta, uma forma prática e objetiva de se obter a velocidade média (MAGLISCHO 1999) e a determinação do limiar anaeróbio (OLBRECHT 1985).

 (Equação 2)

Distância  (metros)

Veloc. Média (m/seg)

Vm100 = 100

1,28

Vm100 = 78,12 segundos

Vm100 = 1’18”12

Outro método muito eficiente para a determinação do limiar anaeróbio e capacidade de trabalho anaeróbio foi desenvolvido por MONOD & SCHERRER (1965) em músculos sinergitas e isolados um método não invasivo para determinação do LAn, este protocolo foi chamado de potência critica (PC). Este protocolo é definido como a maior velocidade de corrida que pode ser mantida durante um período de tempo indeterminado sem ocorrer exaustão (GRECO 2000, HILL 1993), tendo este estudo uma forte associação com a capacidade de manutenção do metabolismo aeróbio dos indivíduos. Segundo HILL (1993) existem três modelos matemáticos para se descrever a relação potência-tempo ou trabalho-tempo, pelos quais se obtêm os valores de PC e da capacidade de trabalho anaeróbio (CTA), o primeiro modelo considera a relação não-linear entre a potência e o tempo, onde t = CTA I (P-PC); o segundo modelo considera a relação linear entre a potência e o inverso do tempo, onde P = PC + (CTA x 1/t) e o terceiro modelo considera a relação linear entre o trabalho e o tempo de exaustão, onde T= CTA + (PC x t).

Em estudo realizado por Wakayoshi et. al (1992) os mesmos adaptaram o protocolo proposto por MONOD & SCHERRER (1965) para a especificidade da natação, sendo este denominado como velocidade critica (VC). Neste caso a VC foi determinada com a mesma proposta sugerida pelos autores e utilizando-se da mesma metodologia para a determinação da capacidade aeróbia em nadadores do nado crawl (figura 1). Os autores verificaram uma aIta correlação entre a VC em ergômetro específico (“swimming-flume”) para modalidade e na piscina (r = 0,82), entre a VC na piscina e a velocidade em 4 mM (r= 0,89), e a VC na piscina com a V400 m (r = 0,99). Portanto os autores propuseram o uso dessa metodologia na natação para a avaliação do LAn sem necessitar de coletas de sangue e de um ergômetro específico para a sua realização. WAKAYOSHI et. al. (1992) demonstraram altos valores de correlação entre a VC e VLAn em nadadores com idade entre 16 á 25 anos (r=0,94) também observaram o fenômeno da VC e a Velocidade Inicial do acumulo do lactato sangüíneo (Velocity Onset Blood Lactate – VOBLA) em piscina ergométrica (r= 0,856) e em piscina normal (r= 0,898), encontrando entre as variáveis estudadas alta correlação.

Considerando este protocolo de fácil aplicabilidade e abrangência de um grande número de indivíduos, utilizando este modelo durante as sessões de treinamento sem a utilização de equipamentos sofisticados ou mesmo materiais para coleta de sangue , fazendo uso somente de um cronometro e um papel para anotações dos tempos facilitando assim a utilização deste método por técnicos, preparadores físicos e professores de natação. Este método não sofre nenhuma influencia de idade e gênero (GRECO et al 2003, DENADAI et al 2000) assim como de modalidade especifica (VASCONCELOS et al 2007).

Figura 1. Esquema representativo da determinação da Velocidade Crítica (VC) para distância fixa em nadadores

Atualmente os estudos desenvolvidos utilizando análise biomecânica do nado tendem a busca de recurso de visualização mediante imagem o que tange uma tendência muito distante de nossas piscinas, mas muito mais precisa que a determinação visual e quantitativa do nado,  já que é possível quantificar as forças propulsivas executadas por membros superiores e inferiores e suas respectivas contribuições na determinação do arrasto pelo movimento executado (DESCHODT, ARSAC, ROUARD 1999). A importância é tamanha com relação a performance final do atleta que é possível observar estudos que relacionam todos os componentes de prova como saída, percurso, viradas e chegadas e suas contribuições durante a prova (SILVA et al 2007) através de imagens em pontos determinados da piscina e a relação destas variáveis com modelos matemáticos preditivos (equações de regressão) para a determinação do ritmo ideal de prova e de cada compomente que esta possui. Protocolos que avaliam padrões biomecânicos do nado de forma indireta (CRAIG et al 1985; CRAIG et al 1979) também auxiliam  no desenvolvimento da técnica e diminuição do arrasto ativo, resultando em menor gasto energético e maior eficiência mecânica durante o nado. A maneira de se estimar esse fator é muito simples e de fácil aplicabilidade. A velocidade na natação pode ser descrita pela relação existente entre a produção de energia provinda dos músculos e a eficiência e resistência ao avanço que o corpo recebe ao tentar se deslocar. Assim ao se deslocar na água o nadador experimenta duas forças totalmente antagônica: 1) força que promove a propulsão e 2) resistência ao avanço do corpo que o mesmo sofre em função do meio (TOUSSAINT e VERVOON 1990), necessitando assim, de uma melhora de estimulo nas sessões de treinamento para que o nadador consiga vencer estas barreiras (resistência) e busque a maior velocidade possível com maior eficiência mecânica (PEREZ 2001).

Craig (1985) sugere um modelo muito simples para a avaliação da evolução mecânica dos atletas/ alunos, este tipo de medida indireta pode ser utilizado por qualquer  nível de nadador sendo que os únicos materiais utilizados pelos avaliadores neste caso é a utilização de um cronometro, não necessariamente de mão e uma distância fixa, neste caso utilizaremos como referencia uma piscina de 50 metros comprimento para exemplificação deste protocolo. O Comprimento de braçada (CB) (Equação 3) determinado através da distância nadada dividido pelo número de ciclo de braçadas que é a somatória de ciclos completos (braço direito e esquerdo) executados durante o nado nesta distância, para a facilitação da contagem é possível que se conte o total de braçadas executadas durante todo o percurso e se divida esse valor por dois, que se obterá o total de ciclos executados.

(Equação 3)

CB = Distância Nadada

nº ciclo braçadas

CB = 100

         90

CB = 2,22 metros/ ciclo braçada

Ainda utilizando esse raciocínio é possível se obter relações com relação a freqüência de braçada e velocidade do nado. A freqüência de braçada (Equação 4) também é um parâmetro que pode demonstrar a eficiência de nado durante as sessões de treinamento assim como o CB procurando evitar dispêndio de energia durante as atividades e potencializando o desempenho nos diferentes períodos do treinamento onde é possível observar melhora a eficiência mecânica  e as possibilidades de melhora de tempo dentro de diferentes temporadas.

(Equação 4)

FB = nº ciclo braçadas

Tempo (seg)

FB = 90

         66

CB = 0,68 ciclo braçada/ segundo

A velocidade média (V) do nadador visando a melhora da eficiência mecânica e o ganho desta com a manutenção das características do nado segundo Craig (1985) é fruto da freqüência de braçadas (FB) X ciclo de braçadas (CB) (Equação 5). Este método indireto de avaliação do desempenho tem mostrado resultados muito representativos (NELSON et.al. 1989) e uma ótima variável de controle da velocidade e eficiência mecânica. A escolha do melhor padrão de relação entre uma menor FB e maior CB ou maior FB e menor CB para que nossos alunos e/ou atletas busquem atingir menor tempos (T) não dependem somente dos estímulos aplicados nas sessões de treinamento, mas também observado fatores que podem variar de individuo para individuo como tambem os fatores que estão associados a fatores como volume, intensidade (FAUDE et al 2008), freqüência, idade e gênero (COLANTONIO, BARROS, KISS 2008; COLANTONIO, BARROS, KISS 2007), estatura, estágio maturacional e força muscular (SCHNEIDER e MEYER, 2005) e estágio competitivo (PEREZ 2001), envolvendo assim variáveis genéticas e também variáveis a serem aprimoradas. O caluculo da velocidade de nado se dá através da seguinte equação:

(Equação 5)

VM = Comprimento de braçada x Freqüência de braçada

VM = 2,22 x 0,68

VM = 1,52 metros/ segundo

A avaliação do desempenho técnico dos nadadores é uma tarefa diária dos treinadores de qualquer escalão competitivo, desde os mais jovens até os mais experientes, com cunho extremamente qualitativo e subjetivo, onde a função do treinador é observar o movimento realizado pelo nadador e corrigi-lo e fazendo uso de metodologias alternativas das quais apresentam diferentes índices de subjetividade (SOARES et al 2001).

Referências Bibliográficas

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Msdo. Alessandro Custódio Marques*

Faculdade de Educação Física da UNICAMP

*Mestrando em Ciências do Desporto – Teoria do Treinamento Desportivo

alessandrochocolate@hotmail.com

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