Por que é difícil brincar na escola?

Pesquisa mostra que brincadeiras foram esquecidas no ensino fundamental

efescolarUma reflexão sobre o nome: ensino fundamental. Porque fundamental é aprender a ler e a escrever, fundamental é decifrar parte dos códigos até então reservados ao mundo adulto. Fundamental pode ser copiar o que está na lousa, fazer a lição de casa.

Brincar não é fundamental, ou pelo menos não é algo bem-vindo no ensino fundamental. Foi o que constatou a mestranda Luciana Dias de Oliveira na dissertação apresentada a Faculdade de Educação Física (FEF) da Unicamp. A pesquisa foi realizada em duas escolas municipais da cidade de Indaiatuba, próximo a Campinas, a partir de entrevistas com coordenadores de ensino e professores de duas turmas de primeiro ano, além de períodos de observação de aula.

Em 2010 encerrou-se o prazo para os sistemas de ensino se adequarem e passou a ser obrigatória a matrícula de crianças de seis anos de idade no ensino fundamental, que foi estendido para nove anos. Antes a criança permanecia até esta idade na educação infantil e tinha no brincar o reconhecimento de sua condição primeira: a infância. Brincar, de modo geral, era visto como caminho para o aprendizado de coisas importantes na vida afora, além da diversão. Agora é a sala de aula em vez do parque, lápis e caderno em vez de areia e gira-gira. O que era lúdico, portanto, transforma-se. Agora é até marginalizado.

Não pode mais correr, nem pular, nem rabiscar. Gritar e até cantar, nem pensar. O movimento é restrito: quase da carteira para casa e vice-versa. Mesmo no recreio a brincadeira é dirigida: ou pula-corda ou… E, em alguns casos, tem sim espaço adequado na escola: uma brinquedoteca, por exemplo, que nunca, ou quase nunca, é usada. Na teoria e no projeto pedagógico a importância do brincar pode ser compreendida, mas só aí. Este texto representa a fala da pesquisadora.

Brincar relutante

“O brincar que era apropriado dentro da educação infantil, deixou de ser algo importante mas equivocado até, porque atrapalha a sala de aula. Se na educação infantil as crianças brincam a todo o momento, vão ao parque com bastante frequência e em geral são vistas de forma global e não segmentada, na educação fundamental existe a aula de educação física e muita cobrança”, salienta a pesquisadora. Entrou no ensino fundamental você aprende o que a professora tem que passar na lousa e ponto final. “Brincar é só depois, se terminar a lição. Se não terminar, não pode”, afirma.

Luciana ressalta, porém, que não pôde observar o período de adaptação das crianças. “Chegamos no meio do ano, quando eles já estavam adaptados, mas vimos um ritmo acelerado mesmo, uma cobrança”. Nas turmas observadas na pesquisa, havia entre 25 a 30 crianças. Dentre os episódios que chamaram a atenção de Luciana, até mesmo uma aula de educação física foi oferecida dentro da sala, com uma proposta de desenho. “O ingresso da criança de seis anos ao ensino fundamental deve levar em consideração que ela se mantém criança, com características que devem ser respeitadas. O brincar deve fazer parte da sua rotina, não importa em que instituição de ensino ela seja atendida”.

A pesquisadora afirma que a importância do brincar é um direito que não se limita somente à infância, mas deveria se estender por toda a vida adulta. “O ser humano necessita de prazer além do trabalho, e é no jogo ou outra atividade de lazer que se pode sentir-se ‘vivo’, pois a pressão dos compromissos obrigatórios causa a automatização das ações e alienação nas pessoas. A falta de tempo e o esquecimento da importância do brincar na vida adulta, não podem contaminar a infância, já que ambos, brincar e infância, são inalienáveis”.

As crianças querem brincar, observa Luciana e, como não podem, relutam. “A criança sai da cadeira para buscar um livro, por exemplo, e vai saltitando. Ou pega um brinquedo fora do horário ou do dia do brinquedo e acaba ouvindo ‘se quiser brincar vá para a sua casa’. Em poucas situações o brincar foi aproveitado, ou legitimado. O aluno apenas foi ‘liberado’ enquanto algum trabalho era corrigido ou alguma tarefa realizada e houve sobra de tempo. “Vimos a atividade de brincar para preencher espaços ou brincar como recompensa para a criança”.

Observação positiva

Nas aulas de artes a pesquisadora relatou algumas experiências positivas. O professor utilizou outro espaço além da sala de aula para uma atividade com massinha. Além da tarefa, as crianças começaram a brincar livremente e o professor permitiu, sem restrição. “A criança brincou e fez o que foi proposto. Neste caso também está aprendendo, pois enquanto brinca trabalha o social e o cognitivo”.

Luciana explica que há várias possibilidades de mediação das brincadeiras que possibilitam o aprendizado. Ela propõe por exemplo que o parque, quando existir, seja aproveitado pelo professor que poderia utilizar um instrumento que desafie os alunos, como um bambolê ou qualquer outro elemento diferente àquele ambiente que possa despertar o interesse da criança para o brincar. “O brincar também deve ser aprendido. Se você oferece um jogo para os alunos precisa explicar como funciona, quais são as regras. A criança pode dar outra função para as peças, mas ainda assim está agindo com autonomia. O professor deve oferecer opções para a criança com elementos de mediação e propostas de aprender”. O grande risco se não houver mudanças, afirma a pesquisadora, é educar apenas para o trabalho, como se a vida fosse apenas isso.

Texto: Patrícia Lauretti

Fonte: Jornal da Unicamp
Campinas, 29 de agosto a 7 de setembro de 2014 – Nº 604

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