Renda e escolaridade influenciam obesidade feminina

As causas da obesidade, doença crônica não-transmissível que é fator de risco para o desenvolvimento de vários agravos à saúde, estão diretamente ligadas aos níveis de escolaridade e de renda. Segundo a nutricionista e especialista em Saúde Pública, Ana Lúcia Medeiros de Souza, porém, essa relação varia de acordo com os diferentes estágios de desenvolvimento em que se encontram as sociedades. Na dissertação de mestrado que defendeu na Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, ela demonstra a ocorrência dessa variação na população brasileira, a partir de sua distribuição nas áreas urbana e rural das cinco macro-regiões do país.

Apesar de também oferecer risco à saúde para as pessoas do sexo masculino, que têm maiores tendências a sofrer de problemas cardiovasculares, a obesidade incide mais freqüentemente no sexo feminino. “É nas mulheres também que o problema recebe um destaque maior, talvez até pela pressão social, pelo culto à beleza” afirma a pesquisadora, que diz ter-se restringido à ocorrência da doença nas mulheres de todo o país. No Nordeste urbano, por exemplo, Ana Lúcia encontrou uma situação análoga à de países subdesenvolvidos.

Nessas regiões, a renda e a escolaridade são fatores de expo-sição ao problema da obesidade feminina, ou seja, as probabilidades de desenvolver a doença aumentam paralelamente ao cresci-mento dessas variáveis. A explicação estaria justamente, de acordo com a pesquisadora, na pobreza em que se encontram as pessoas, mesmo aquelas que foram classificadas como de alta renda. O crescimento da renda e da escolaridade possibilitaria, segundo ela, um maior acesso a alimentação. A mesma situação foi encontrada em outras regiões pobres, como a Norte.

O Sul do país, por outro lado, apresentou uma relação diferente entre níveis de escolaridade e renda e a obesidade. Lá, tanto nas áreas rurais quanto nas urbanas, Ana Lúcia encontrou uma situação análoga a de regiões desenvolvidas, onde essas variáveis revelam-se como fatores de proteção à doença. Quanto maiores os níveis de renda e escolaridade, menores são as probabilidades de tornar-se uma mulher obesa. “Isso acontece por causa de um maior acesso tanto à informação quanto a alimentos selecionados, disponíveis em regiões com um grau maior de desenvolvimento”.

“Os dados foram recolhidos na Pesquisa Nacional de Saúde e Nutrição (PNSN) de 1989, que reúne uma amostra de 11.623 mulheres bastante representativa”, afirma Ana Lúcia. Para fazer sua análise, ela dividiu as mulheres em níveis de escolaridade e de renda, estabelecendo-os através de diferentes pontos de corte em cada área e região, por causa das disparidades de desenvolvimento encontradas no Brasil. Segundo a pesquisadora, os resultados encontrados revelam um novo direcionamento da relação entre obesidade e níveis de renda e escolaridade.

O maior desenvolvimento de algumas regiões tornam essa relação negativa pelo acesso à informação e produtos mais diversificados disponíveis no mercado. Ana Lúcia afirma, porém, que a obesidade tornou-se um problema de saúde pública e as autoridades parecem não ter notado isso, sugerindo que se aproveite essa mesma relação negativa para lutar contra o problema, investindo em campanhas de prevenção contra a obesidade feminina.

Fonte:
Agência USP de Notícias

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