Síndrome de Down – Estudo caracteriza forma e composição do corpo

A prevalência da obesidade e da baixa estatura é característica facilmente identificável em pessoas com síndrome de Down (SD). Após a descoberta da síndrome, disseminaram-se estudos para identificar as patologias dela decorrentes – associadas a fatores genéticos, fisiológicos e ambientais – como doenças crônicas do coração, hipotonia muscular, deficit do hormônio tireóideo e obesidade. Entretanto, essas pesquisas não são ainda em número significativo. Com efeito, os trabalhos que se destinam a determinar a incidência de pessoas com peso corporal acima dos limites recomendados concentram-se principalmente em crianças e adolescentes que não apresentam a síndrome e se revelam escassos em relação aos jovens com SD, embora perfeitamente identificado o sobrepeso que os caracteriza.

Esta constatação levou o educador físico Fabio Bertapelli a investigar as causas genéticas, fisiológicas e ambientais da prevalência da obesidade nessas crianças e adolescentes. Além disso, o estudo teve como objetivo avaliar a composição e a forma física corporal (somatotipo) de pessoas com idade de 6 a 19 anos, de ambos os sexos, institucionalizados no município de Campinas, assistidos pela Apae. O autor reuniu subsídios realizando inicialmente uma revisão bibliográfica, principalmente em periódicos internacionais, diante da escassez de publicações nacionais, sobre a composição corporal dessas crianças e adolescentes.

O pesquisador considera que os estudos sobre a prevalência da obesidade, da distribuição da gordura corporal e da forma física corporal (somatotipo) em indivíduos com SD são de extrema importância como fontes de informações relevantes para a prevenção de doenças associadas ao maior acúmulo de gordura corporal. Além de contribuírem para compreensão dos fatores que predispõem esse público ao maior acúmulo de gordura em comparação à população sem a síndrome, as pesquisas oferecem subsídios para programas de atividades físicas adaptadas, destinadas a pessoas com essa deficiência, e a todos os profissionais que os atendem, como educadores físicos, terapeutas ocupacionais, médicos, fisioterapeutas, nutricionistas, entre outros.

Bertapelli explica que o biotipo corresponde ao formato do corpo e está relacionado à composição do corpo humano. Com base nesse conceito, a análise do corpo físico pode ser realizada através de um método denominado somatotipo (soma, corpo), desenvolvido com o objetivo de fornecer um sistema tridimensional do corpo humano por meio de recursos fotoscópicos e antropométricos. Em outras palavras, o somatotipo é um método quantitativo que permite a caracterização conjunta da forma e da composição do corpo humano em três grupos: endomorfo, mesomorfo e ectomorfo. No endomorfo estão os indivíduos com predomínio da gordura corporal; no mesoformo, aqueles em que prevalece a massa muscular; e no ectomorfo, os sujeitos identificados pela linearidade relativa do corpo, ou seja, caracterizados pela “magreza”.

Normalmente, as pessoas apresentam uma somatória de cada uma dessas características e o predomínio de uma delas é que determina a inserção em um dos grupos. Na população com SD há escassez de estudos em relação aos componentes somatotipológicos entre meninos e meninas. Esta lacuna levou o autor a analisar o somatotipo em crianças e adolescentes com a síndrome no município de Campinas, com a finalidade de fornecer subsídios para a compreensão dos componentes envolvidos no processo de crescimento físico dessa população. A técnica do somatotipo envolve 13 medidas antropométricas, incluindo peso, estatura, diâmetros biepicondilar do fêmur e úmero, perímetros da perna medial e braço, dobras cutâneas tricipital, bicipital, subescapular, suprailíaca, abdominal, coxa e perna.

Com base na literatura consultada, o autor se deparou como primeira indagação: por que ocorre a prevalência da obesidade nas pessoas com SD? Procurou as possíveis causas que estariam relacionadas a fatores genéticos, fisiológicos e ambientais. Levantou então alguns fatores que podem ser relacionados à SD e que contribuem para a obesidade. Entre eles, menciona a alteração do hormônio leptina e insulina, micronutriente zinco e taxa metabólica basal.

As pessoas com a síndrome têm aumentados os índices de leptina, responsável pelo controle do apetite, o que as leva a comer mais. Da resistência à insulina resulta maior acúmulo de gordura e diabetes. A deficiência de zinco dificulta o crescimento e, em consequência, a menor estatura determina maior propensão ao acúmulo de gordura. Como a maioria nasce com alterações cardiovasculares, as suas atividades físicas tendem a ser mais restritas. Em geral nascem também com falta de massa muscular e, em decorrência, apresentam taxa metabólica basal baixa, ou seja, gasto energético menor do que uma pessoa normal em repouso, o que leva ao automático acúmulo de gordura. A maioria apresenta hipotireoidismo, que contribui também para o seu aumento.

Na pesquisa, realizada com 50 crianças (6 a 12 anos) e adolescentes (13 a 19 anos) – faixas etárias consagradas em estudos realizados sobre o comportamento da gordura corporal em jovens – junto à Apae de Campinas, Bertapelli se propôs a verificar qual a diferença entre meninos e meninas (crianças) e moças e rapazes (adolescentes); entre crianças e adolescentes; e entre sexos nos dois grupos. Um dado, não presente na literatura, particularmente despertou a atenção do pesquisador: a maioria dos meninos não apresentou obesidade. Pelo contrário, neles os resultados indicaram valores normais de gordura corporal, enquanto meninas, moças e rapazes, conforme esperado, apresentaram grau alarmante de obesidade. As razões dessa diferença nos meninos não constituiu objeto do seu estudo e precisam ser investigadas. Em relação ao somatotipo, os resultados foram coerentes aos de prevalência de obesidade: os meninos apresentaram predomínio da massa muscular (mesomorfos) e os demais grupos caracterizaram-se pelo excesso de gordura (endomorfos).

Em decorrência da revisão bibliográfica e dos dados colhidos junto ao universo pesquisado, o autor conclui que as pessoas com SD precisam de atividades físicas, mas reconhece que essa inserção não é fácil, porque existe carência de programas específicos para essa população. Ele destaca o papel da família, que embora em geral preocupada com os aspectos clínicos, muitas vezes não está conscientizada da existência de programas de esportes que, embora poucos, podem ser frequentados pelas pessoas com SD. Por sua vez, a reeducação alimentar pode ser facilitada através da intervenção de nutricionistas que levem a mudanças de hábitos alimentares não só da criança e do adolescente como da família, que em geral desconhece também que as pessoas com a síndrome tendem a comer mais, às vezes em decorrência do aumento do índice de leptina presente no organismo.

Ao considerar as razões que o moveram ao trabalho, Fabio Bertapelli manifesta a preocupação com a contribuição social, cada vez mais presente em jovens pesquisadores: “Com a pesquisa, pretendo principalmente contribuir para a sociedade que é carente de informação, preocupado simultaneamente em divulgar os resultados conseguidos de forma compreensível a não especialistas. Espero contribuir ainda para a evolução social e para o desenvolvimento científico do país com publicações de temas correlatos e ainda não devidamente esclarecidos.”

No trabalho, o educador físico se propôs mais especificamente a avaliar a prevalência da obesidade na criança e no adolescente com SD e verificar que fatores levam à obesidade nessa população e ainda analisar alguns instrumentos utilizados na determinação da gordura corporal, como as técnicas do somatotipo e da composição corporal. Em decorrência do estudo, ele propõe relacionar essas variáveis ao crescimento, ao nível de atividade física, ao desempenho motor, aspectos ainda pouco estudados.

Publicação

Dissertação: “Composição corporal e somatotipo em pessoas com síndrome de Down”
Autor: Fabio Bertapelli
Orientador: José Irineu Gorla
Unidade: Faculdade de Educação Física (FEF)

Texto: Isabel Gardenal & Carmo Gallo Netto

Fonte: Jornal da Unicamp

Campinas, 25 de junho de 2012 a 01 de julho de 2012 – ANO 2012 – Nº 531

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