Treinamento aeróbico para crianças

vo2criancasO volume máximo de oxigênio (VO2max) representa uma variável indispensável na avaliação da capacidade aeróbica de crianças. O VO2max aumenta ao longo da segunda infância de acordo com o aumento das dimensões corporais. Crianças com idades inferiores aos 12 anos não apresentam diferença significativas entre os gêneros, embora os meninos obtenham valores no VO2 max maiores a partir dos 5 anos de idade. Geralmente as crianças apresentam um VO2max relativamente alto (48 e 58ml/kg.min). Valores bem acima daquele que indica um bom nível de condicionamento aeróbico de sujeitos adultos (42 ml/kg/min).

Alguns estudos investigaram a diferença entre gêneros num programa de treinamento aeróbico sobre o VO2max de crianças impúberes. Um destes estudos investigou 85 crianças entre 10 e 11 anos de idade. 35 crianças (17 meninas e 18 meninos) foram envolvidas em um programa de treinamento de corrida de 13 semanas e 50 crianças (22 meninas, 28 meninos) participaram do grupo controle. Cada criança foi avaliada em um teste progressivo e contínuo em um ciclo ergômetro antes e após o período de treinamento de 13 semanas sob as mesmas condições e procedimentos. O consumo de oxigênio, dióxido de carbono, ventilação e frequência cardíaca (FC) foram monitorados continuamente durante o teste.

O programa de treinamento consistiu de treinamentos intervalados e corrida contínua de longa distância, 3 vezes por semana, com intensidade acima de 80% da FC máxima, durante 1 hora por sessão. O VO2max aumentou significativamente após o programa de treinamento para o grupo de crianças que realizaram o treinamento enquanto nenhuma alteração foi notada para o grupo controle. Tal aumento foi maior nas meninas (9,1%) do que os meninos (4,6%). Este fato pode ser explicado pela menor aptidão inicial das meninas.

Um segundo estudo também avaliou crianças da mesma faixa etária. Neste estudo, foram avaliados os efeitos de dois tipos diferentes de treinamentos aeróbicos. 84 crianças participaram deste estudo, sendo que 36 crianças realizaram treinamentos durante 13 semanas com intensidade superior a 80% da FC máxima, 3 vezes na semana, durante 25 a 35minutos na zona alvo. Outras 20 crianças exercitaram 2 vezes na semana durante 15 a 20 minutos dentro da zona alvo durante as mesmas 13 semanas. O grupo controle foi composto por 28 crianças.

O VO2max foi avaliado em teste de exercício contínuo e progressivo até a exaustão em uma bicicleta ergométrica antes e após o período de 13 semanas de treinamento. As crianças que exercitaram acima de 80% da FC máxima entre 15 a 20 minutos por sessão, 2 vezes na semana não apresentaram ganhos significativos no VO2max. As crianças que exercitaram 3 vezes na semana e que mantiveram uma intensidade de treinamento superior a 80% da FC máxima durante 25 a 35 minutos por sessão apresentaram um ganho em torno de 7% no VO2max. Em relação ao gênero, não houve diferenças significativas entre eles.

Outro estudo investigou 35 crianças também da mesma faixa etária. 19 crianças (10 meninas e 9 meninos) participaram de um programa de treinamento de resistência de 13 semanas, 3 vezes na semana, 1 hora por sessão com intensidade acima de 80% da FC máxima e 16 crianças (7 meninas e 9 meninos) serviram como grupo controle. Foram analisados o volume de ejeção, o débito cardíaco e pressão arterial e o VO2max em um teste em ciclo ergômetro, antes e após o período de treinamento. Também foi feita uma avaliação ecocardiográfica em repouso.

A ideia deste estudo foi investigar o efeito de um programa de treinamentos aeróbicos sobre a função cardíaca em exercício máximo e suas diferenças entre gêneros em crianças impúberes saudáveis. A contribuição de fatores potencialmente envolvidos nessas adaptações, tais como as dimensões e a função cardíaca diastólica e sistólica também foram investigadas. O programa de treinamento levou a um aumento no VO2max,  provocado principalmente por um aumento na volume de ejeção em ambos os gêneros. Além disso, os meninos aumentaram seu VO2max de forma mais significativa que as meninas (15 e 8 % de aumento respectivamente). Os meninos também apresentaram maior aumento no volume de ejeção em exercício do que as meninas (15 e 11 % respectivamente). Nenhuma alteração foi observada no volume de ejeção em repouso.

Com relação aos dados do ecocardiograma de repouso, foi observado um aumento no diâmetro ventricular esquerdo concomitante com uma melhoria na função diastólica e sistólica final. Este fato possivelmente constituiu em um elemento essencial no aumento do VO2max após o treinamento dessas crianças. Além disso, durante o exercício intenso, uma diminuição da resistência vascular sistêmica, provavelmente indicando mudanças adaptativas cardiovasculares periféricas, poderiam também desempenhar um papel importante no aumento do VO2max.

Considerações

Os estudos apresentados demonstraram que o consumo máximo de oxigênio pode aumentar em crianças impúberes após um programa de treinamento aeróbio e que esse aumento é da mesma ordem em meninos e meninas, quando a capacidade aeróbica inicial é levada em consideração. Este aumento ocorre quando o treinamento é organizado de forma que pelo menos 3 sessões são realizadas por semana, com 25 a 35 minutos de intensidade superior a 80% da FC máxima. O VO2max em crianças aumenta basicamente em função do aumento do volume de ejeção. Essa melhoria envolve mecanismos semelhantes, incluindo as condições de carga e morfologia cardíaca para ambos os gêneros.

Referências:

MANDIGOUT S.; LECOQ A.M.; COURTEIX D.; GUENON P.; OBERT P.. Effect of gender in response to an aerobic training programme in prepubertal children. Acta Paediatr. 2001 Jan;90(1):9-15.

MANDIGOUT S.; MELIN A.; LECOQ A.M.; COURTEIX D.; OBERT P.. Effect of two aerobic training regimens on the cardiorespiratory response of prepubertal boys and girls. Acta Paediatr. 2002;91(4):403-8.

OBERT P.; MANDIGOUTS S.; NOTTIN S.; VINET A.; N’GUYEN L.D.; LECOQ A.M.. Cardiovascular responses to endurance training in children: effect of gender. Eur J Clin Invest. 2003 Mar;33(3):199-208.

TOURINHO FILHO, H.; TOURINHO, L.S.P.R.. Crianças, adolescentes e atividade física: aspectos maturacionais e funcionais. Rev. Paul. Educ. Fís.1998; 12:71-84.

 

 

 

Luciano Carlos Fernandes
Professor de Educação Física – CREF 6 / MG – 4812 G

Especialista em Treinamento Desportivo – UFV
Editor do www.educacaofisica.org

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