Xampus não proporcionam resultados prometidos

Pesquisas revelam que formulações de empresas que fabricam xampus carecem de base científica

Se o leitor encontrar na gôndola do supermercado um xampu que prometa nutrir seus cabelos, desconfie. Por mais sério e bem-intencionado que seja o fabricante, ele não poderá cumprir o compromisso. E a razão é mais do que óbvia: é impossível oferecer nutrientes a uma estrutura morta.

Esse tipo de “equívoco” é relativamente comum na indústria de cosméticos, como revela a professora Inés Joekes, do Instituto de Química (IQ) da Unicamp. Segundo ela, que desde 1985 coordena uma linha de pesquisa sobre cabelo, o segmento ainda carece de metodologias científicas que possam dar sustentação a seus produtos. “Nosso objetivo principal é formar profissionais capacitados para trabalhar no setor produtivo, de modo a contribuir para a geração de métodos mais rigorosos e eficazes tanto para a formulação quanto para a avaliação dos cosméticos”, afirma.

O esforço da equipe coordenada pela professora Inés é muito bem-vindo, sobretudo para os consumidores. Até aqui, segundo ela, os estudos realizados em seu laboratório, que contam com colaboração de especialistas da USP, não conseguiram constatar nenhuma das propriedades tomadas para análise, embora estas constem nos rótulos dos cosméticos. “Assim como ocorre em outras áreas, esta também abriga empresas sérias e outras nem tanto. Porém, mesmo as firmas idôneas carecem de fundamentação científica para desenvolver suas formulações. Estas últimas certamente sairão ganhando com o aprimoramento das técnicas e processos produtivos, pois poderão agregar valor aos seus produtos. Como o tempo, a tendência é que o joio seja separado do trigo”, prevê a pesquisadora.

A falta de base científica apresentada pelo setor de cosméticos, prossegue a docente, não implica necessariamente na geração de resultados nocivos à saúde do consumidor. A legislação em torno desses produtos, cuja fiscalização cabe à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), é bastante rigorosa. Todavia, muita gente segue comprando xampus, condicionadores, cremes etc que não podem oferecer o que prometem. Isso fica claro a partir dos resultados de alguns dos estudos executados pelo grupo comandado pela professora Inés. Um deles, desenvolvido por uma de suas alunas de iniciação científica e outra de doutorado, investigou o que acontece com os cabelos brancos, quando submetidos à radiação ultravioleta, também emitida pelo sol. A crença geral é de que eles amarelariam. Alguns xampus, inclusive, prometem evitar essa mudança de cor.

Depois de alguns ensaios laboratoriais, o estudo constatou que a cor dos cabelos permanecia inalterada. As alunas resolveram, então, aumentar a dose de radiação ultravioleta. Curiosamente, os fios se tornaram ainda menos amarelos. “Ou seja, o produto que promete evitar que os cabelos brancos amarelem sob o sol não serve para nada”, atesta a professora Inés. A próxima pesquisa nessa linha, adianta ela, será sobre os produtos que informam conter protetor solar. “Queremos ver o que vai acontecer”. Outro forte apelo dos cosméticos dirigidos aos cabelos diz respeito ao brilho que poderiam conferir aos fios. A docente do IQ lembra que o brilho é uma propriedade óptica conhecida há séculos.

Como, então, um xampu poderia conferir mais luminosidade aos cabelos? A professora Inés começa a sua resposta com uma outra pergunta. “Quando queremos dar brilho a um piso ou móvel, o que fazemos? Ora, passamos cera. Com os cabelos é a mesma coisa. Só que ao invés de cera, os cosméticos contêm derivados de silicone, que alisam e dão um aspecto brilhante aos fios. Ocorre, no entanto, que esse tipo de substância é de tal forma aderente, que depois de três ou quatro lavagens a pessoa tem impressão de que os cabelos estão sujos”, diz. Só recentemente, acrescenta, é que a indústria está aperfeiçoando as moléculas desses derivados de silicone, de modo que elas se desprendam dos fios após uma única lavagem.

Mais um “equívoco” da indústria de cosméticos, considera a professora Inés, é lançar produtos para cabelos prometendo resultados positivos para um amplo espectro de pessoas. Isso também é impossível de ser cumprido. O motivo, de acordo com ela, é que o cabelo tem uma grande variabilidade biológica. Em outras palavras, indivíduos pertencentes a um mesmo grupo étnico apresentam cabelos com características diferentes. “O xampu que deixa um tipo de cabelo com bom aspecto pode proporcionar um resultado completamente adverso em outro. Acontece que esses produtos são lançados com tal estardalhaço no mercado, que os consumidores são levados a comprá-los pelo menos uma vez”.

Uma crença generalizada entre a população, conforme a professora Inés, considera que quanto mais espuma faz um xampu, maior poder de lavagem ele tem. Ainda que indiretamente, os fabricantes reforçam esse mito ao colocarem uma grande quantidade de espumante em seus produtos. “As pessoas precisam saber que a espuma não exerce qualquer função na limpeza dos fios. Não serve para nada, a não ser obrigar as pessoas a gastarem mais água para tirá-la da cabeça”, adverte. Para que o consumidor não pague por algo que não vai obter, a docente do IQ recomenda que ele opte inicialmente pelo cosmético mais barato, de firma tradicional. “Se ele não proporcionar o resultado esperado, aí sim vale a pena substituir gradativamente por outros mais caros”, ensina.

Cabelo x lã – A ciência ainda sabe pouco acerca do cabelo. De acordo com a professora Inés Joekes, a literatura sobre o tema continua escassa no mundo todo. “Depois de 20 anos de pesquisas, penso que meu grupo acumulou alguns conhecimentos importantes sobre essa estrutura complexa. Mas tenho de reconhecer que ainda é pouco se levarmos em conta o que temos que aprender”, explica. Curiosamente, acrescenta a docente, existem mais estudos sobre a lã do que em torno do cabelo, embora ambos tenham a queratina, espécie de proteína, em suas composições. “Isso se deve ao interesse comercial que sempre existiu em relação à lã. Não podemos nos esquecer que as indústrias têxteis tiveram uma participação relevante na Revolução Industrial. Até hoje esse setor tem uma grande importância econômica para muitos países”, esclarece.

A tendência, considera a professora Inés, é que a geração de novos conhecimentos nesta área tragam impactos positivos para a indústria de cosméticos, que poderá se valer de métodos mais precisos para o desenvolvimento de seus produtos. Isso já começa a acontecer, segundo ela, graças à contratação de mão-de-obra altamente qualificada por parte das empresas. A pesquisadora afirma que nenhum de seus ex-alunos está desempregado. “Se a minha memória não falha, eu tenho ex-alunos trabalhando em todos os grandes fabricantes de cosméticos do Brasil, exceto um. São esses profissionais que vão ajudar a estabelecer a fundamentação científica de que o setor tanto precisa”.

De acordo com dados da Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC), o Brasil é o terceiro maior mercado consumidor de cosméticos do mundo. Em 2006, as vendas registraram um crescimento de 26% em relação ao ano anterior, gerando um movimento próximo de US$ 18 bilhões. Só para se ter uma idéia do que representa esse desempenho, basta saber que o mercado global apresentou um aumento de apenas 1,2% no mesmo período. Ainda segundo a ABIHPEC, nos últimos cinco anos as exportações do setor tiveram um crescimento acumulado de 138%, atingindo US$ 484 milhões.

Fio a Fio

  • Os cabelos crescem, em média, entre 8 e 18 centímetros ao ano
  • Na maioria das vezes, o cabelo não cai, como as pessoas acreditam. O problema mais comum é o rompimento, que pode ser produzido, entre outras situações, pela fricção durante a lavagem
  • O cabelo é uma estrutura morta. Portanto, não pode ser nutrido
  • Exceto para as pessoas que têm cabelos curtos, não é recomendável a lavagem dos fios diariamente
  • A espuma dos xampus não contribui para a lavagem dos cabelos. Só serve para produzir maior gasto de água
  • Os cabelos apresentam grande variabilidade biológica. Assim, dificilmente um produto proporcionará resultados positivos para um grande grupo de indivíduos
  • Na dúvida, opte sempre por um cosmético barato de empresa idônea. Se não alcançar o resultado esperado, só depois passe gradativamente para os mais caros

Texto: Manuel Alves Filho
Contato: manuel@reitoria.unicamp.br

Fonte: Inés Joekes
Jornal da Unicamp

Deixe um Comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *